OPINIÃO

Paulo Cesar Marques da Silva é professor da Faculdade de Tecnologia (FT/UnB) e chefe do gabinete da Reitoria.

Paulo Cesar Marques da Silva


Na mensagem de despedida que acompanhou a coroa de flores, a “família UnB” escreveu: “sua alegria permanece entre nós”. É assim que todos lembraremos de Raul Aragão. Antes da primeira palavra sempre chegava o sorriso. Não deve haver foto em que ele não apareça sorrindo.

 

Foi assim no dia em que o conheci. Pelo menos foi aquele dia que ficou registrado em minha memória como nosso primeiro encontro. Era um sábado de 2015 e eu tinha sido chamado para participar de uma roda de conversa naquela edição da formação de voluntários da Roda da Paz. Falei de velocidade. Raul já era engajado nas atividades da ONG e, ao final, me puxou para o jardim para trocar ideias. Muitas ideias, muita energia, e sempre o sorriso envolvendo todo aquele turbilhão.

 

O que movia Raul era a ideia da convivência harmoniosa no trânsito. Para ele, o lugar de circulação das pessoas era para todo mundo circular, não para ser apropriado por uma só parte das pessoas – nos dias atuais, a parcela motorizada. Mas o que Raul queria não era briga, era o compartilhamento.

 

Foi certamente por isso que ele e a Rodas da Paz se deram tão bem. Fundada há 14 anos, a ONG abraçou essa ideia com tal força que ela já ficou expressa na própria marca, aprovada junto com sua criação: uma bicicleta e um carro lado a lado, talvez superpostos, quem sabe até fundidos. 

No local do acidente, há agora homenagens. Foto: Beto Monteiro/Secom UnB

 

O ideal de igualdade de direito sobre o espaço não se realiza, porém, se as pessoas não adquirem autoconfiança para exercê-lo. Aposto que foi por isso que Raul se dedicou também ao trabalho de outra organização, a Bike Anjo, que ajuda as pessoas a pedalar. O registro que melhor sintetiza, acho eu, o trabalho de Raul na Bike Anjo é a foto em que ele aparece abaixado, ao lado de uma pequena criança no que deve ser sua primeira experiência no pedal.

 

Assim era Raul, que se foi cedo demais, deixando muitas saudades na UnB e na cidade. Um “ser de luz” com definiu Hélder, seu pai. Aliás, como que vocalizando o que o próprio Raul pensaria sobre sua partida, Hélder disse em frente às câmeras: “a culpa é de todos nós, como sociedade, que, ao privilegiarmos o carro, fazemos vias velozes para o automóvel, o que dificulta o deslocamento a pé ou de bicicleta”.

 


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