Júlio Barêa Pastore
O Jardim de Sequeiro integrará a exposição do Pavilhão Brasileiro da Mostra Internacional de Arquitetura – La Biennale di Venezia, 2025, sob curadoria de Luciana Saboia (arquiteta, professora da FAU/UnB), Eder Alencar e Matheus Seco, ambos formados pela FAU/UnB. Os três arquitetos acumulam prêmios nacionais e internacionais e, importante frisar, o histórico desta cooperação é indicativo da qualidade que pode advir do nosso ambiente acadêmico.
Com o título de (Re)invenção, a curadoria pretende “estabelecer um elo entre tradição e invenção, utilizando elementos que dialogam com o meio ambiente e propõem um ciclo sustentável de construção e reúso”, moldando, em última análise, os territórios e as dinâmicas urbanas. Neste contexto foi incluído, entre casos brasileiros ancestrais e contemporâneos, o Jardim de Sequeiro, tomado em conjunto com o Instituto Central de Ciências, de Oscar Niemeyer e Lelé, sob o tema Plataforma Jardim, assim apresentada pela curadoria:
O jardim naturalista de flores, capins e plantas savânicas nasce, cresce, floresce e seca acompanhando a sazonalidade do bioma do Planalto Central em uma grande plataforma existente de estrutura pré-moldada em concreto protendido. Seguindo essa lógica, outras estratégias são expostas como ações projetuais inventivas que se apropriam do existente, criam identidades e fazem do espaço construído uma oportunidade para se reinventar como realidade.
É um reconhecimento significativo, que capta a essência do Jardim de Sequeiro como proposta paisagística que busca estabelecer um diálogo coerente com a arquitetura de enorme expressividade do edifício e sua dimensão histórica, assim como responder às demandas e desafios objetivos da Universidade, e ainda inovar no campo conceitual, compositivo e técnico de cultivo.
O Projeto Jardim de Sequeiro é recente. Concebido durante a pandemia de covid, plantado pela primeira vez em novembro de 2020, encerra agora seu quinto ciclo. É a principal vitrine da integração entre as frentes de ensino, pesquisa, extensão e gestão das áreas verdes da Universidade, tornada possível pela parceria entre a Faculdade de Agronomia e Veterinária (FAV) e a Prefeitura da UnB (PRC), em ato desde 2016 e formalizada em 2022, com o nome de Viveiro-escola da PRC.
Tal parceria tem contribuído para o trabalho realizado pela Coordenação de Paisagismo da PRC e pelo Laboratório de Paisagismo da FAV. A inclusão do Jardim de Sequeiro na exposição brasileira da Bienal de Veneza, assim como o prêmio recebido na V Bienal de Paisagismo da América Latina no México, em 2022, são as mais relevantes mostras dos resultados obtidos, mas de modo algum as únicas.
Ainda que o contexto das universidades públicas dos últimos anos tenha sido desafiador, com cortes no orçamento, pessoal reduzido e ataques políticos, os resultados deste esforço, que integra docentes, técnicos, trabalhadores terceirizados, estudantes, parceiros externos e voluntários, começam a permear nossos espaços na Universidade, visíveis no cuidado com a gestão do verde e nas estratégias para uma atuação mais econômica e sustentável.
Dentro deste processo, foram fundamentais a estruturação de corpo técnico em paisagismo na PRC e qualificação do viveiro, principal centro experimental e abrigo da coleção de matrizes que, recentemente, ganhou uma expansão denominada Viveiro Seco, onde estão sendo testados jardins perenes e que não demandam irrigação.
Este contexto favorece ações integradas de ensino, pesquisa, oficinas e eventos de extensão, ampliando academicamente o tema do paisagismo, envolvendo mais setores da universidade e possibilitando maior eficiência na gestão dos espaços verdes. Essas ações, por sua vez, se correlacionam e estão inseridas numa rede mais ampla de iniciativas relevantes em nossa Universidade, capitaneadas por especialistas de diferentes campos cujo trabalho abrange paisagem, paisagismo e temas afins. Dentre elas, destacamos o Jardim Louise Ribeiro, no Instituto de Ciências Biológicas, o LAB Paisagem, sediado na FAU, o Horto da FCTS, o recente processo de criação do Museu de História Natural da UnB e o trabalho da equipe multidisciplinar sobre o tema no Plano Diretor do Campus Darcy Ribeiro. E muitas outras iniciativas poderiam ainda ser mencionadas.
Enfim, por que é importante remontar, ainda que brevemente, todo este contexto aqui, onde se responde à pergunta formulada sobre “o impacto de termos o Jardim de Sequeiro como uma das estratégias sustentáveis expostas na Bienal de Arquitetura de Veneza”?
Justamente porque, como o Jardim de Sequeiro nos mostra ano após ano, o principal resultado da florada de cada estação não é seu impacto imediato, mas o fato de que a beleza destes eventos o alimenta enquanto projeto e, em última análise, permite que ele permaneça vivo, ano após ano. Permite, isto é, que continue contribuindo para fortalecer a produção acadêmica e a estrutura de gestão das áreas verdes, assim como incentivando o envolvimento e comprometimento das pessoas, em diversas frentes, que tornam possível o contexto mais amplo que sustenta o jardim. Contexto, aliás, cuja construção demanda tempo e tem a ver com o crescimento das plantas, pois guarda algo de acumulativo e algo de cíclico.
Portanto, este enorme reconhecimento recebido pelo projeto agora contribui para divulgar os trabalhos da nossa Universidade para o Brasil e, de fato, para o mundo. E, tão importante quanto, contribui para a própria permanência do Jardim de Sequeiro e do contexto de pesquisa e inovação em paisagismo do qual ele advém e é mostra. Em suma, tal reconhecimento nos dá força para continuar.
A Bienal de Arquitetura de Veneza é, sem dúvida, uma das principais mostras internacionais, e a participação brasileira vem recebendo ampla cobertura da mídia. Para quem estiver acompanhando, antes mesmo da abertura, a nossa universidade já vem tomando espaço nos principais veículos no Brasil e no exterior. A abertura da exposição, prevista para 10 de maio, vai nos permitir conhecer integralmente o trabalho da curadoria. Mal podemos esperar!
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