INTERNACIONAL

Convite foi feito pela Embaixada da França a cinco universidades públicas brasileiras. Em contato com o idioma, alunos enriqueceram repertório acadêmico, social e pessoal

Ana Rossi, Ingrid Guimarães, Jean-Christophe Rufin (escritor), Gabriel Moura e Catherine Petillon (Embaixada da França), reunidos em São Paulo. Foto: Arquivo pessoal 

 

Desde 1903, um importante prêmio de literatura é concedido na França a autores de novas obras. A honraria leva o nome da academia que o oferece: Goncourt. Em 2019, livros considerados pela comissão julgadora viajaram fronteiras e chegaram ao Brasil. Em uma iniciativa da Embaixada da França e do Instituto Francês do Brasil, estudantes e professores de cinco universidades públicas, entre elas a UnB, formaram grupos de trabalho para avaliar quatro romances. Há expectativa que, no segundo semestre, os grupos possam avaliar os livros que concorrem ao prêmio deste ano.

 

Em maio, a professora do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução (LET) Ana Helena Rossi, e os alunos Gabriel Moura, de Línguas Estrangeiras Aplicadas ao Multilinguismo e à Sociedade da Informação (LEA-MSI), e Ingrid Guimarães, de Letras-Francês, viajaram a São Paulo para o Goncourt Brasil. Lá, cada grupo teve a oportunidade de defender uma obra, explicando por que ela deveria ser escolhida como a mais relevante.

 

Gabriel fez a defesa de L'hiver du mécontentement (O Inverno do descontentamento), de Thomas Reverdy, diante de outros jovens das universidades de Minas Gerais (UFMG), de Pernambuco (UFPE), de São Paulo (USP) e do Rio de Janeiro (UFF). 

Para Gabriel Moura, o intercâmbio feito na Universidade de La Rochelle, na França, foi indispensável à análise das obras literárias. Foto: Arquivo pessoal

 

O romance aborda a vida de uma jovem atriz no período em que Margaret Thatcher ascende ao parlamento inglês, sendo a primeira mulher no posto e encaminhando uma política desenvolvimentista ao Reino Unido. O destaque da obra vai para o movimento grevista atuante naquele período, marcado por um longo e rigoroso inverno, que parou o país por quatro meses.

 

No fim, a obra escolhida em unanimidade pelos grupos universitários foi outra: Frère d'âme (Irmão de alma), de David Diop, que expõe a participação dos senegaleses na Primeira Guerra Mundial em defesa da França, país colonizador. “O importante da experiência é termos a oportunidade de defender as obras, não só como leitores, mas como críticos literários, expressando um olhar acadêmico e marcando o significado político delas”, considera o estudante.

 

O livro vencedor do Goncourt Brasil foi publicado em 2018. Ao lê-lo, Gabriel enxergou logo a conexão com o contexto atual das imigrações na Europa. “No meu intercâmbio pude ver de perto a realidade vivida por estrangeiros na França, a xenofobia é expressa de forma velada, assim como ocorre com o racismo em nosso país. Foi durante as leituras e nas discussões sobre este livro que este cenário se tornou mais explícito para o nosso grupo”, aponta.

 

Além de Frère d'âme e L'hiver du mécontentement, foram analisados Leurs enfants après eux (Depois deles, seus filhos), do escritor Nicolas Mathieu e Maîtres et esclaves (Mestres e Escravos), de Paul Greveillac. Este último venceu o Goncourt oficial em 2018. Além do Brasil, único representante das Américas, outros 13 países, a convite e por orientação de suas respectivas embaixadas francesas, formaram grupos de leitura para conhecer e analisar as obras do Goncourt.

 

EXPERIÊNCIA DE VIDA – A professora Ana Rossi entende que a oportunidade vivenciada está em consonância com o Plano de Internacionalização da UnB, já que dá aos estudantes chance concreta para estar em contato com outros idiomas e culturas. “Uma das questões da internacionalização da Universidade de Brasília é o domínio de outra língua. Esta não é uma competência que se adquire de um dia para o outro, e essa oportunidade contemplava a compreensão do francês, a capacidade de falar, de escrever e de analisar produções”, explica.

 

A estudante Ingrid Guimarães confirma que a participação no grupo expandiu suas perspectivas em relação ao idioma. Aprovada no vestibular de 2018, ela cursou todo o ensino médio na rede pública e estudou inglês e francês no Centro Interescolar de Línguas (CIL). “Eu não tinha contato frequente com literaturas francesas e nunca fui ao exterior, então essa experiência me fez sair da zona de conforto e pesquisar muito para me atualizar. Isso foi maravilhoso”, conta. 

Inspirada pela professora Ana Rossi, a estudante Ingrid Guimarães projeta carreira como docente. Foto: Audrey Luiza/Secom UnB

 

Agora ela pretende se aprofundar. “A UnB ensina a ter autonomia. Agora que entendi a dinâmica, estou em busca de professores para me orientar, pois pretendo fazer projeto de pesquisa. Para me manter no ritmo, já estou até elaborando um artigo”, compartilha.

 

Na UnB desde 2014, Gabriel Moura desfrutou de algumas oportunidades oferecidas pela UnB. Uma delas foi o intercâmbio de um ano na Université de La Rochelle, na França – experiência que contribuiu para a participação no Goncourt Brasil. “Foi fundamental para a interpretação dos livros. O contato que tive com a cultura local supriu o desconhecimento a respeito de literatura e de gêneros literários durante minha graduação e garantiu a compreensão de terminologias da fala cotidiana”, explica.

 

Ana Rossi, que selecionou os estudantes via rede social, se mostra satisfeita com o progresso vivido pelos alunos. “Nosso papel enquanto professor é de criar pontes, criar oportunidades para que eles tenham contato com novas línguas, novas realidades, novos países. Como todos sabemos, informação é poder.”

 

 

*estagiário de Jornalismo na Secom/UnB.

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