OPINIÃO

Manoel Neres é coordenador da Coordenação da Questão Negra (Coquen)/Centro de Convivência Negra (CCN) da Universidade de Brasília. Possui graduação em filosofia, teologia e administração pública; especialização em democracia participativa, república e movimentos sociais; e mestrado em educação.

Manoel Neres

 

O Dia da Consciência Negra, comemorado no mesmo dia da morte de Zumbi (20-11), torna-se cada vez mais uma realidade na sociedade brasileira, ampliando-se inclusive, para o Mês da Consciência Negra, Novembro Negro ou até 365 Dias de Consciência Negra.


Diversos avanços, como criação de disciplinas, grupos de pesquisa, de acolhimento, coletivos, publicações, audiovisuais, artes visuais, programas (AfroAtitude), são breves exemplos de como a Universidade tem lidado com a questão étnico-racial (negra). Ilustra isso, inclusive, a integração da Coordenação Negra/CCN na Comissão de Boas-Vindas dos/as novos/as estudantes, antiga reinvindicação dos coletivos negros da comunidade universitária.


Nada ainda mais marcante quando, nas abordagens acadêmicas ou triviais, nos deparamos com as comparações do “antes” e do “agora”, contrastando uma UnB totalmente “branca” do passado com uma universidade um pouco mais “colorida” da atualidade. Mudança, que por ser simples e real, desvela-se aos olhos com facilidade.


Isso contudo, não significa que os problemas foram integralmente superados e que estejamos isentos da responsabilidade de enfrentá-los. Relato brevemente alguns deles.


Ausência de uma política capaz de fomentar, acolher e potencializar ações mais impactantes, que envolva ingresso, permanência, conclusão, orçamento, logística, controle, pesquisa, publicação.


Alguns elementos pontuais ilustram bem o dito acima, começando pela fragilidade no controle do ingresso por Cotas para Negros ou Cotas para Escolas Públicas - PPI (pretos, pardos, indígenas). Uma vez que o elemento determinante para o ingresso é a “autodeclaração”, muitas pessoas veem aí a oportunidade de tirar proveito da situação, utilizando-se de uma dita mestiçagem generalizada na sociedade brasileira. Este problema tende agora a se agravar, dado que os registros dos/as novos/as estudantes serão totalmente virtuais, a partir do próximo semestre.


A fim de coibir essa desenvoltura fraudadora de bom número de candidatos/as ao ensino superior, muito tem se discutido no intuito de encontrar instrumentos adequados a um controle eficiente. Entre esses mecanismos, o que parece mais viável até então é a adoção de comissão de heteroidentificação.


Essas comissões, que algumas pessoas, erroneamente, nomeiam de “tribunal racial”, em nada se configuram verdadeiramente como um tribunal e nem mesmo racial. Enquanto um tinha por objetivo, identificar e resguardar elementos vinculados ao conceito de sangue puro, raça pura, paridade genética, eugenia (elementos biogenéticos, genótipos), as outras se limitam a uma simples observação física vinculada à tonalidade da pele, cabelo, nariz (fenótipos), no conjunto ou na acentuação de uma ou duas das característica. Portanto, resume-se a verificar aquilo que facilmente salta aos olhos, isentando-se de maiores dificuldades.


Algumas pessoas, também de forma não convincente, alegam que a adoção dessas comissões aumentaria demasiadamente o quadro de pessoal, ou até então, que tal fato destoa do regime democrático, uma vez que tira da pessoa a condição de boa índole antes que se comprove alguma culpa sua. O primeiro e o segundo argumento são superados com facilidade se adotar, por exemplo, um sistema de amostragem. A pessoa, não obrigatoriamente precisará passar por uma comissão, mas ela saberá que ao optar por um sistema de cotas, estará sujeita sim, a formas de controle por parte da Instituição (por iniciativa própria ou provocada por denúncia).


Outro aspecto a destacar é a ainda ocorrência de racismo no ambiente universitário e mais agravante quando se verifica que isso provém de estudantes, docentes e servidores. A Coordenação Negra e a Diretoria da Diversidade têm recebido e encaminhado um conjunto importante de denúncias de racismo, mas, às vezes esbarram em algumas dificuldades institucionais. Fato esse que tem gerado expressivos protestos estudantis.
Não menos importante que o anterior é o número expressivo de casos de sofrimento mental por pessoas negras na UnB (inclusive ocorrências de suicídios). É uma situação preocupante (que precisamos enfrentar coletivamente), mas que acreditamos será melhor enfrentada agora com a criação da Diretoria de Atenção à Saúde da Comunidade Universitária (Dasu).


Por fim, um olhar especial sobre um lugar, símbolo da presença negra na UnB, o Centro de Convivência Negra (CCN). Apesar de suas limitações, desde 2006, constitui-se em um espaço de acolhimento, encontro, estudo, pesquisa e projetos. O atual aspecto físico e o posicionamento hierárquico não representam adequadamente o significado do CCN. Ele precisa de ter mais atenção em matéria financeira, representativa e simbólica. Há alguns anos, docentes, estudantes e servidores/as pleitearam a transformação deste local em um centro de acolhimento e pesquisa, nos moldes dos centros multidisciplinares, vinculados à Reitoria. Estamos retomando essa discussão e defendemos que o CCN receba a atenção devida à estatura de seu significado à causa negra e que isso traduza-se em mais autonomia, orçamento e expressividade institucional.


Um CCN mais forte significa maior possibilidade de atenção aos grupos e projetos universitários (ensino, pesquisa e extensão), de potencializar os contatos e parcerias com a comunidade externa e de propiciar um espaço de maior conforto e qualidade de vida a seus visitantes internos e externos, os quais procuram por biblioteca temática, laboratório de informática, espaço de reunião, eventos e convivência.

Mês da Consciência Negra – Diversos eventos estão ocorrendo na UnB, tais como seminários, desfiles, exposições, saraus, lançamentos, etc. Confira a programação.

      

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