OPINIÃO

Dioclécio Campos Júnior é professor emérito da Universidade de Brasília. Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro, é mestre e doutor em Pediatria, ambos pela Universidade Livre de Bruxelas. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria e presidente do Global Pediatric Education Consortium (GPEC). Atua principalmente nos temas: vínculo mãe-filho, aleitamento materno, nutrição infantil, crescimento e desenvolvimento, desnutrição, estreptococcias, parasitologia, saúde pública e comunicação.

 

 

Dioclécio Campos Júnior

 

Guerras e ditaduras as mais violentas sucedem-se ao longo da história. O objetivo é sempre o mesmo: preservação do poder impositivo e conquista de maiores riquezas materiais para os grupos dominantes. É, sem dúvida, a mais grave modalidade de poluição do planeta porque não se restringe à contaminação tóxica da atmosfera. Vai muito além disso. Implanta o modelo do radicalismo destrutivo, que aterroriza a humanidade sepultando os valores morais e éticos subjacentes a uma civilização verdadeira.

 

Assim, a espécie Homo sapiens vai-se tornando a mais selvagem e animalesca de todos os tempos. Priorizar a violência é a meta de um número crescente de lideranças que comandam o espetáculo. É a mais grave pandemia que contamina a maioria das populações, dizimando-as no elevado grau de disfarçados genocídios.

 

O sonho do altruísmo, virtude pregada com fervor por célebres líderes humanistas, desaparece das relações interpessoais. Já não se ama a Deus acima de tudo nem se respeita o próximo como a si mesmo. Não se admite qualquer divergência. As falas atingem teores agressivos. Os gestos tendem a ser ameaçadores. Os palavrões passam a ser o idioma universal. O próximo é tratado como ente medíocre. A alma é enfraquecida pela arma; a paz, pela guerra. Os insultos são crescentes, espinhosos e maledicentes.

 

A confiança desaparece a olhos vistos. A esperança é ridicularizada. A cultura bélica e ditatorial domina o mundo por meio da sua virulência indisfarçável que mantém um deletério cenário, no qual somente prosperam as trevas do inferno dantesco.

 

A comunicação serena e respeitosa entre as pessoas é desconstruída por meio de poderosos recursos que contagiam a mente do ser humano. São exemplos os avanços da ditadura da imagem, consolidada por meio das novas tecnologias da comunicação, que passam a ser uma modalidade de drogadição a serviço do poder reinante. O ato de pensar já não é mais exercido com o grau de equilíbrio e serenidade que requer. Imagens contundentes, violentas e ameaçadoras tomam conta das telas de televisão, computador, celular e cinema. Geram comportamentos alinhados ao padrão de agressividade que se dissemina mundo afora. Mensagens sintonizadas com a inverdade são divulgadas e replicadas no ritmo da inteligência artificial. As chamadas redes sociais transformam-se em verdadeiras senzalas em que se hospedam multidões de escravos da atualidade.

 

Esse clima tão desfavorável à convivência fraterna põe em risco a sobrevivência da humanidade. É mais impactante do que qualquer pandemia. Contamina, há séculos, a maioria das populações. Seus efeitos danosos condenam os seres humanos a uma existência insensata, oriunda da cultura bélica e ditatorial.

 

É evidente que uma vida saudável, desfeita por essas estratégias abusivas, deve ser reconstruída de forma consciente e libertadora. O grande requisito é a retomada do diálogo, entendido como sólida base do humanismo que desaparece das sociedades. Há que ser recuperado como a mais virtuosa forma de interação pessoal. O termo diálogo é de origem grega, incorporado ao latim. Inclui as partes: diá, que significa ''por meio de'', e logo, que se traduz por ''palavra''. Como bem definiu a escritora Dad Squarisi, ''é o reconhecimento por meio da palavra''.

 

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Publicado originalmente no Correio Braziliense em 22/10/2020.

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