OPINIÃO

Professor Emérito da Universidade de Brasília e Pesquisador Associado Departamento de Geografia e do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais (NEUR/CEAM/UnB). Graduado em Geografia e História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Livre Docente/doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiênica em Geografia Urbana, atuando principalmente nos temas: urbanizacão em Brasilia, gestão do território, planejamento urbano, exclusão socioespacial e emprego/desemprego em áreas metropolitanas.

Aldo Paviani1 

 

Antecipar o que poderá ocorrer em parte do sistema educacional de um país, no caso as universidades, é um exercício de futurologia que tende a desafiar a imaginação de qualquer analista. O montante de informações necessário para essa tarefa deverá orientar as possibilidades de algum acerto, mas não de todas as previsões, em razão do encadeamento na avaliação de “se isso...”, “então aquilo”, que pode induzir a acertos em pontos considerados e enganos em outros. Tentarei responder como será a universidade pensando o futuro, não o futuro remoto, mas aquele que se possa vislumbrar em até trinta anos.

 

Há universidades federais, estaduais, (poucas) municipais e privadas. Pensa-se a universidade federal do futuro, que se deseja inovadora e moderna para ser o carro chefe das demais. E qual a razão desse  enfoque? Em primeiro lugar, porque as universidades federais estão presentes em todos os Estados brasileiros, possuem, quase todas, um conjunto de ações, de ensino de graduação e de pós-graduação. Proporcionam e dão estímulos à pesquisa, pois cada vez mais os docentes possuem mestrado e doutorado, e continuada exigência de produção de conhecimento. Em razão do ensino, da pesquisa e da extensão, essas universidades possuem gestão similar e orçamento destinado pela União[1].

 

Considere, que para se diferenciar num de seus três pilares, as universidades deverão ter autonomia administrativa, financeira e acadêmica. Assim, o futuro demandará universidades autônomas, mais flexíveis e abertas, com estruturas inter, trans e muldisciplinares. As humanidades e as chamadas “ciências duras” não terão um fosso entre elas. A distância entre teoria e a aplicabilidade também deverá ser reduzida. Isto é, o ensino e a pesquisa deverão estar aptos a solucionar com rapidez e maior número de questões tecnológicas e sociais que lhes forem postas. Com isso a Universidade do futuro deve aperfeiçoar em muito sua secular tendência à inovação e criatividade, de enfrentamento de desafios para inventar o futuro.

 

Há quem defenda que as universidades se modernizem e fechem cursos destinados a fornecer diplomas. Esclareça-se, no entanto,  que as humanidades destinadas a questões culturais e artísticas continuarão a existir, pois as artes e cultura desempenharão um papel fundamental na criação de soluções urbanas, tecnológicas, educacionais e de saúde pública. O avanço, em contraposição à estagnação, demanda imaginação. Não é outro o entendimento de Gerard Malnic,[2] que acentua “é reconhecido em todo o mundo que a função das universidades não é somente a formação de profissionais de nível superior, mas também a criação de conhecimento...”.     

Haverá mudanças em muitas universidades em elação às empresas. Muitas pesquisas e mesmo práticas e procedimentos se tornaram obsoletos para o setor privado e governos. Assim, Etzkowitz avalia que “os centros de pesquisas passarão a ser mais do que laboratórios instalados dentro dos campi universitários...” e que “Eles serão híbridos e semelhantes às incubadoras, pois comportarão academia, indústria, pesquisadores e governo. Deles poderão sair grandes ideias que servirão às startups.” [3] Pondera-se que essas incubadoras não servem somente a setores externos, alimentando também a pesquisa e a formação acadêmica. Portanto, consideramos que a universidade do futuro terá estreita ligação com o setor privado da economia. As universidades federais e algumas estaduais ainda terão fortes recursos públicos, mas irá incorporar aportes do setor privado, interessado nas inovações, patentes e pesquisas desenvolvidas, garantindo-lhes avanços tecnológicos e de produção.  Por isso, o setor privado fará investimentos, modificando o comportamento atual de apartação entre universidades e empresas. Essa mudança estará em futuro bem próximo, com as universidades tenderão a ser mais propícias a criação de parcerias e de estruturas administrativas e acadêmicas mais flexíveis . Para Giorgetti de Brito, ... a mobilidade e flexibilidade deverão ser as marcas da educação superior no futuro, e as universidades deverão agir no sentido de” identificar seus pontos comuns, áreas de excelência e possibilidades de interação e integração.[4]

 

Em trinta anos, a universidade será menos presencial em alguns ramos do conhecimento. Em geral, o ensino e a pesquisa adotarão a abordagem inter-, trans- e multidisciplinar, pois não terão mais departamentos estanques, faculdades e institutos isolados. A mútua colaboração será exigida no ensino e na pesquisa. Como muitas das atuais especialidades deixarão de existir, outras profissões com visão de totalidade serão exigidas. A interatividade liberará recursos para sua aplicação de acordo com a demanda da sociedade, tal como indica Giorgetti de Britto “a Universidade do Futuro deverá estar em sintonia com a velocidade de avanço do conhecimento e com as exigências da sociedade, com total ciência e compreensão de suas missões cultural, econômica e política, sistêmica, comprometidas com a realidade...”. Os think tanks serão a tônica das abordagens conjuntas, de soluções conjuntas.

 

Nessa mudança de paradigma, é possível prever uma crise no ensino superior, a qual deve ser superada e deve ser cumprido o papel da universidade para evitar o que indica Isaac Roitman[5]: “se nada fizermos, seremos no futuro uma sociedade com graves injustiças sociais, com índices assustadores de violência, com total desrespeito ao próximo e outras mazelas amplificadas que temos no presente.”. 

 

Enfim, acreditamos que a integração de diferentes níveis (universidade, governo, sociedade, setor privado) é a base para o futuro que queremos

 

[1] Observe que a não autonomia financeira dificulta o exercício de previsões futuras para essas instituições. 

[2] MALNIC, G. O futuro da Universidade pública. Acessível em http://www.unbfuturo.unb.br/videoteca/17-a-universidade-do-futuro-o-futuro-da-universidade – acesso em 17/10/2018

[3] - ETZKOWITZ. H. Como será a Universidade do futuro. Acessível em https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2018/03/como-sera-universidade-do-futuro.html. Acesso em 16/10/2018.

[4] BRITTO, L. R. G. de. A Universidade do Futuro. Acessível em http://www.iea.usp.br/iea/quem-somos/a-usp/a-universidade-do-futuro – acesso em 15/10/2018.

[5] ROITMAN, I. A Educação: para onde vamos? Acessível em https://www.moderna.com.br/lumis/portal/file/fileDownload.jsp?fileId=8A7A83CB31BFE9740131D31F5A442B61   -  acesso em 16/10/2018.

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Publicado originalmente na revista Brasília debate em 18 de dezembro de 2018

1 Professor Emérito da Universidade de Brasília e Pesquisador Associado Departamento de Geografia e do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais (NEUR/CEAM/UnB). Graduado em Geografia e História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e livre docente/doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiênica em Geografia Urbana, atuando principalmente nos temas: urbanizacão em Brasilia, gestão do território, planejamento urbano, exclusão socioespacial e emprego/desemprego em áreas metropolitanas.

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