OPINIÃO

Antonio Jose Camillo de Aguiar é professor do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília, graduado em Ciências Biológicas pela Universidade São Paulo, mestre em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba, e doutor em Entomologia pela Universidade Federal do Paraná. Sua linha de pesquisa principal é a sistemática de abelhas, com foco na taxonomia e biogeografia das abelhas do Cerrado.  Atua em disciplinas como Entomologia, Diversidade Animal, Biologia de Abelhas, entre outras dos cursos de Ciências Biológicas, Agronomia, Ciências Ambientais e Biotecnologia.

Antonio Aguiar

 

Abelha Nasutopedia puncticutis Aguiar, 2018, endêmica das florestas nebulosas dos Andes, descrita pelo Laboratório de Abelhas da UnB. Foto: Arquivo Pessoal

 

Para muitos é de se estranhar ter um dia para as abelhas (3 de outubro) e não ter um para as moscas e os besouros. A importância desse organismo é fruto de sua diversidade e seus serviços prestados. No mundo, estimasse que existam mais de 20 mil espécies de abelhas, no Brasil mais de mil espécies, e no nosso Cerrado ao menos 400 espécies. É possível encontrar mais de 200 espécies em um único hectare de Cerrado conservado.

 

Esse enorme contingente de organismos responsáveis pela reprodução da grande maioria das plantas faz delas merecedoras de um dia próprio. Não só a reprodução de plantas silvestres depende das abelhas, mas muitas espécies agrícolas, em especial as que os frutos são importantes fontes de vitaminas. A conservação das abelhas está em estado de alerta devido o potencial impacto da extinção de espécies na produção agrícola e na saúde humana.

Abelha uruçu-amarela, espécie sem ferrão ameaçada de extinção, com ocorrência registrada no DF. Foto: Arquivo Pessoal

 

Uma série de estudos indicam que o extermínio das populações de abelhas e a extinção local de espécies está associada ao efeito nocivo dos agrotóxicos. Somado a perda de habitat como a conversão do Cerrado, Amazônia e áreas naturais em áreas urbanas, monoculturas e pastagens, a antropização tem levado a extinção massiva das abelhas. É notícia comum a mortandade de abelhas Apis mellifera pelo uso desenfreado de agrotóxicos, o que está inviabilizando a apicultura inclusive no Brasil. A produção do maracujá cada vez mais está sendo também inviabilizada pela ausência das abelhas mamangavas.

 

Apesar de muito a se lamentar sobre os rumos do progresso desordenado e não sustentável, uma série de ações da sociedade, em especial das instituições de pesquisa como a UnB, Embrapa, ICMBio, tem demonstrado o potencial gigantesco das abelhas nativas dos mais variados tipos.

 

As abelhas indígenas sem ferrão, conhecidas popularmente como irapuas, iraís, jataís, uruçus, são consideradas agentes número um do desenvolvimento sustentável, por seu uso em programas de educação ambiental, produção agrícola sustentável e produção de mel.

Grupo de pesquisa do Laboratório de Abelhas da Universidade de Brasília, na Estação Ecológica do IBGE. Foto: Arquivo Pessoal

 

Na UnB, o Laboratório de Abelhas do Departamento de Zoologia, IB, atua em várias frentes da pesquisa, desde a descrição de espécies novas, estudos de evolução e biogeografia, monitoramento da diversidade em áreas nativas e urbanas, polinização, como também o manejo para produção agrícola em parceria com Embrapa, controle da abelha africanizada Apis mellifera junto com o Corpo de Bombeiros, e reconhecimento das espécies de abelhas sem ferrão do DF junto com Associações de Meliponicultores. Dentre os projetos em andamento do laboratório podemos citar o Barcode do DNA das abelhas sem ferrão do DF e o monitoramento das abelhas do DF.

 

O Laboratório de Abelhas é coordenado pelo professor Antonio Aguiar e fica no Departamento de Zoologia, Instituto de Ciências Biológicas. Mais informações podem ser acessadas em http://www.unbeelab.unb.br/.

 

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