OPINIÃO

Carlos Vieira Mota  é decano de Gestão de Pessoas da UnB. Graduado em Ciências Econômicas, pela União Pioneira de Integração Social (UPIS); especializado em Métodos Quantitativos e em Gestão Universitária, pela Universidade de Brasília (UnB); mestre em Administração, pela Centro Universitário Euro-Americano (Unieuro); doutor pela Universidad de la Integración de las Américas (Unida) – Assunção, Paraguai. 

Carlos Mota

 

No calendário sazonal de comemorações no Brasil, a exemplo de outras profissões, consta como ponto facultativo o dia de 28 de outubro para comemorar o Dia do Servidor Público. Definiu-se esse dia em razão do Decreto-Lei n. 1.713, promulgado no dia 28/10/1939. No rol dos direitos e obrigações do Servidor Público, definido e representado pelo novo Estatuto dos Servidores Públicos Civis da União, a Lei n. 8.112/90, encontramos expressão que referencia que as comemorações do dia do Servidor Público será o dia 28 de outubro.

 

Nós, servidores públicos – que me permito referir como servidores do público – temos nesta data, a oportunidade de usufruir um dia de homenagens específicas. Diversas possibilidades se apresentam nesse dia: de descanso, do convívio mais próximo com os familiares, de lazer, entre tantas outras. Porém, para além dessas, nos é dada, também, a oportunidade de realizarmos reflexões a respeito do que é ser servidor público. Talvez seja esse o espírito desse dia: permitir reflexões sobre nossos papéis, antigos e novos, frente aos desafios cotidianos na nossa jornada profissional.

 

O servidor público tem papel de representante do Estado, sendo mantido pelos esforços da sociedade que financia toda a estrutura de serviços destinada aos cidadãos. Essa relação assume caráter virtuoso em um ciclo eterno de contribuições e expectativas de benefícios pela sociedade. Muitas vezes, em que pese todo o esforço individual, a oferta de serviços plenos com qualidade e presteza, encontra óbice que não depende somente do enfrentamento particular e individual do servidor.

 

Nosso papel na estrutura organizacional assume importância específica. Povoamos edificações inertes que ganham vida com nossa presença, acolhemos pessoas com as mais diversas necessidades – afinal não há pessoa sem necessidades, por mais bem posicionada que esteja na escala social ou profissional – e, segundo nosso conhecimento e capacidade, interagimos para apresentar as soluções mais adequadas. Fazemos parte de um segmento valoroso no mundo do trabalho.

 

As oportunidades de crescimento profissional estão, também, a nossa volta. A própria estrutura organizacional oferece as possibilidades que poderão ser conquistadas, não por sorte – sorte é estar preparado para as oportunidades –, mas por preparação intelectual, esforço físico e mental cotidiano e dedicação amorosa ao serviço. O crescimento na carreira é alcançado ao se dar significância na ocupação dos cargos existentes na Instituição.

 

O indivíduo como construtor de seu destino tem no serviço público a possibilidade de realizar suas expectativas. No entanto, a competição entre pares existe, os desafios são constantes, a urgência está ali ao lado com surpresas nos detalhes. Portanto, tudo conspira positivamente, claro, com exigência para darmos o melhor de nós.

 

Veja, por exemplo, no pensamento de Theodore Roosevelt1 uma representação do quanto devemos estar atentos frente aos desafios:

“É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se a derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota.”

  

Essa representação traduz o espírito do que é ser servidor público: arriscar; vencer ou perder; elevar-se frente às dificuldades e diferenciar-se por meio de esforços próprios. Devemos valorizar o que somos para tornarmos melhor. Afinal, viver é correr riscos.

 

Porém, não bastam as ações ou pretensões individuais. O servidor público deverá contar com a disponibilidade de estrutura física da organização para exercer seus papéis. Nesse quesito novos desafios se apresentam: obsolescência – muitas vezes caracterizada como obsolescência perceptiva, dada a natureza das relações entre instituição e fornecedores – dos equipamentos, dos procedimentos operacionais, etc.; insalubridades que oneram o Estado e submetem o servidor público a ambientes perigosos e às vezes inadequados à permanência da pessoa. Sem falar, naturalmente, no quesito, hoje, tão discutido e tão necessário: acessibilidade. Não só a acessibilidade física aos ambientes laborais. Relaciona-se, também, ao conhecimento, como gestão do conhecimento, ou a determinados insumos que melhor qualificariam as entregas, se disponíveis.

 

O servidor público, enquanto sujeito às regras do Estado, está inserido em uma estrutura que a cada dia se vê diminuída pelos mais diversos aspectos de vacâncias no quadro. A movimentação de um projeto de reforma previdenciária no âmbito do Governo Federal, por exemplo, causa estresse nos servidores, pois observam que estão sujeitos à diminuição dos seus vencimentos, duvidando, até, das intenções das representações políticas. A possível perda salarial na aposentadoria pode ser a mais severa punição, depois de tantos anos de dedicação ao serviço público.

 

A diminuição do quadro de servidores apresenta, ainda, outra vertente ocasionadora de sofrimento: o acúmulo de trabalho. As tarefas do servidor que se retira do serviço público deverão ser assumidas por quem ainda permanecerá na atividade. Acrescida da dinâmica tecnológica, hoje presente em quase todos os processos de entrega, obriga fazer mais em menos tempo e com menor contingente de pessoal.

 

O cenário contemporâneo vivenciado pelo servidor público está envolvo em muitas mudanças, a maioria delas oriundas do Governo Federal. Mudaram o modo de registrar frequência, o modo de despachar processos, o modelo presencial de trabalho.

 

Lidamos agora com o Sistema Eletrônico de Frequência, com o Sistema Eletrônico de Informações, com o teletrabalho, entre outros. Todos relacionados às tecnologias da informação, representando avanços no mundo do trabalho, com a finalidade de garantir a satisfação do usuário. Assim, aumentando o nível de exigências adaptativas de conhecimentos, com reflexos nas estratégias e ações estruturantes, seja abrangendo as carreiras, seja abrangendo as Instituições. Isso influencia na percepção dos servidores, no centro de equilíbrio e na sua zona de conforto.

 

Os desafios são intermináveis.

 

Ao revés dessas condições perduram alegrias e sentimentos de gratidão, pois formamos uma grande comunidade singular, com coloridos múltiplos, que dão sentido ao estar aqui e agora.

 

Resiliência define bem o comportamento dos servidores públicos em determinado momento de sua história profissional. Percebe-se essa resiliência desde a mesa no escritório/gabinete até as manifestações de grupos frente aos chamados das representações sindicais.

 

Fazendo alusão a Michel de Montaigne2, devemos honrar o servir ao público, sendo útil ao maior número de pessoas, o que torna honrosa nossa ocupação.

 

A escolha, então, é simples: ser feliz.

 

Forte abraço a todos os servidores do público, em especial aos servidores da Universidade de Brasília.

 

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1 Theodore Roosevelt, Jr. foi militar, explorador, naturalista, autor e político norte-americano que serviu como o 26º Presidente dos Estados Unidos de 1901 a 1909, tendo ascendido à presidência depois de brevemente atuar como o 25º Vice-Presidente.

2 Michel Eyquem de Montaigne foi jurista, político, filósofo, escritor, cético e humanista francês, considerado o inventor do ensaio pessoal.

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