OPINIÃO

Isaac Roitman é doutor em Microbiologia, professor emérito da Universidade de Brasília, coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro (n.Futuros/CEAM/UnB), membro tiular de Academia Brasileira de Ciências. Ex-decano de Pesquisa e Pós-Graduação da UnB, ex-diretor de Avaliação da CAPES, ex-coordenador do Grupo de Trabalho de Educação, da SBPC, ex-sub-secretário de Políticas para Crianças do GDF. Autor, em parceria com Mozart Neves Ramos, do livro A urgência da Educação.

Isaac Roitman

 

O ser humano, consciente de sua mortalidade, vive em constante medo que fica estigmatizado em nossas mentes. Esse estresse permanente pode destruir o cotidiano da pessoa, seus relacionamentos e vida social. Sob o ponto de vista coletivo e religioso, criou-se o conceito de apocalipse, sinônimo de ruína, aniquilamento, desgraça, fim dos tempos, fim do mundo. Em várias épocas foram marcadas datas para o apocalipse que não aconteceram.

Presenciamos atualmente uma epidemia, provocada pelo Covid-19, que provavelmente se transformará em uma pandemia – epidemia de origem infecciosa que sai do controle e afeta um grande número de pessoas em um continente ou no planeta.

Tivemos no passado grandes epidemias e endemias, como a Peste Negra, causada pela bactéria Yersinia pestis, que matou cerca de 50 milhões de pessoas no século XIV. Outras grandes pandemias levaram a óbito milhões de pessoas: cólera (1816), gripe russa (1889), gripe espanhola (1918), gripe asiática (1857), gripe de Hong Kong (1968), varíola (que no século XX causou a morte de 300 milhões de pessoas) e, mais recentemente, ebola, H1N1, Sars e Mers (síndrome aguda respiratória grave).

No Brasil, várias doenças infecciosas causam grande preocupação na área de saúde pública, tais como a febre amarela, sarampo, dengue, zika, chikungunya, hepatite A, Aids, malária, leishmaniose e doença de Chagas.

A progressão da doença respiratória provocada pela Covid-19 está colocando o planeta em pânico, trazendo à tona o conceito do juízo final, mudando os hábitos das pessoas, e crises financeiras que podem abalar a economia planetária. A não ser que o Covid-19 se torne um assassino em massa, podemos prever que a histeria causará mais sofrimento do que o vírus em si. Provavelmente com as medidas acertadas na área de saúde pública e os avanços científicos, teremos o controle da doença e o desenvolvimento de ferramentas de prevenção, sobretudo vacinas.

O Covid-19 na realidade não é o grande inimigo da humanidade. A maldade, o egoísmo, a sensação de poder e outras imperfeições humanas são muito mais perigosas. É pertinente lembrar o assassinato em massa de Hiroshima e Nagasaki. É também pertinente refletir sobres os dados de 2017 do Fundo das Nações Unidas (Unicef), que a cada 4 segundos uma pessoa morre de fome no planeta.

A devastação de nossas florestas, o acumulo de resíduos, a utilização predatória de nossos recursos naturais, a destruição das culturas ancestrais como a cultura indígena, a vergonhosa desigualdade social, as deficiências educacionais, o desemprego e a falta de valores éticos são armas que nos levarão próximos ao juízo final. Qual a vacina para esta grave doença dos seres humanos? A vacina é o mitzvát.

Mitzvot (plural de mitzvát) são os 613 mandamentos citados na Torá. O significado comum de mitzvát expressa um ato de boa ação. Na tradição judaica, devemos fazer, pelo menos a cada dia, uma mitzvát, como, por exemplo, ajudar um idoso a atravessar a rua ou dar alimento a quem tem fome. É pertinente lembrar o pensamento de Jean-Jacques Rousseau, “as boas ações elevam o espírito e predispõem-no a praticar outras”. Vamos utilizar valores como a justiça, amor, carinho e solidariedade como bússola de nossas atitudes. Assim estaremos protegendo a humanidade do juízo final.

 

Artigo publicado originalmente no Monitor Mercantil

 

 

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