OPINIÃO

A Diretoria da Diversidade é fundamentada nos direitos humanos relativos aos valores da justiça, da liberdade, da solidariedade, da igualdade, da equidade, e do combate ao preconceito, à intolerância e a todo tipo de violência e violações de direitos, com vistas a formação de valores ético-humanísticos, voltados à consolidação de uma sociedade justa e plural na qual prevaleça a convivência com a diversidade e o respeito às diferenças.

Diretoria da Diversidade - Decanato de Assuntos Comunitários

 

Ansiedade, medo, raiva, tristeza constante, desânimo, ausência de produtividade, isolamento e pensamentos suicidas, não foram poucas as vezes que os profissionais da DIV escutaram de diferentes membros da UnB a descrição desses sintomas nos acolhimentos, sendo que vários relatos apresentavam correlação direta com os ambientes acadêmicos e administrativos.


Os acolhimentos realizados pela DIV são diferenciados na medida em que tentam interpretar a vulnerabilidade da vítima associado às condições biopsicossociais que ela apresenta em termos de cor, raça, gênero, etnia, sexualidade e classe social. Assim os dados colhidos expressam com fidelidade os resultados de pesquisas sobre assédio moral, sexual e atos discriminatórios, práticas comuns em nossa sociedade e também na Universidade, que violentam e violam o direito de mulheres, negros e negras, LGBTQIa+, indígenas e quaisquer outros indivíduos que apresentem em seus corpos identidades sociais para além do perfil hegemônico dominante historicamente.


Segundo as pesquisas, as maiores vítimas de assédio sexual são as mulheres. A objetificação e sexualização dos corpos femininos percorreram o tempo e, mesmo com os avanços no campo do direito, a cultura machista, misógina e sexista ainda prevalece em diversos âmbitos sociais. Nos acolhimentos realizados pela DIV, é muito comum discentes, docentes, técnicas e terceirizadas exporem em suas falas as violências, abusos, constrangimentos e até chantagens vivenciadas no ambiente universitário.


Quando se trata de raça, a cor da pele precede a competência, a criatividade, as aptidões e o protagonismo nos mais variados campos e espaços, ratificando cotidianamente que, apesar do pioneirismo da UnB na implementação das políticas afirmativas, com o objetivo de uma reparação histórica, ainda há pessoas que questionam a necessidade do enfrentamento às desigualdades e veem os processos de inclusão como “processos preconceituosos”, sem análise, debate e nenhum aprofundamento sobre a questão, sendo racistas, tentando eliminar as poucas conquistas com discursos de desqualificação e reproduzindo estereótipos e termos pejorativos para impedir a participação e a permanência de negras e negros na UnB.


A padronização da família imposta pelas igrejas e pelo Estado, utilizada historicamente como mecanismo de controle sobre os corpos, principalmente de mulheres e crianças, com fins de centralização do capital, chamados bens de herança, é um dos mecanismos utilizados até hoje para conter a diversidade sexual em armários, para tratar a sexualidade para além da heteronorma, o desejo e as vivências plurais de amor como crime. Há na nossa sociedade uma violência implacável contra as liberdades mais primárias; o direito de ser, de viver, de existir e de amar, porque os “desavisados” não entendem que não existe “opção sexual”, mas orientação sexual, e sobre a última não há que se ter controle, apenas respeito.


“os quilombolas são preguiçosos”, “índio só é índio na aldeia dele”, aculturados por uma colonização eurocentrada, a maioria das pessoas sequer pensa sobre suas origens, seus antepassados, sobre sua cultura original e partem de falácias e narrativas retóricas que expressam violências. Uma sociedade não sobrevive sem passado, eliminar culturas e promover o apagamento de saberes é o mesmo que eliminar sua própria essência e sua verdade. Se hoje a UnB tem processos de inclusão específicos para assegurar o acesso desses grupos é porque precisamos aprender com seus conhecimentos milenares.


Assediar moral, sexual ou discriminar pessoas são atos que atentam contra a dignidade humana e, embora alguns casos se apresentem em razão de disputas e competividade exacerbada, as pessoas mais atingidas detém em seus corpos os marcadores alvos de opressões históricas. Neste sentido, ainda que tenhamos normas como a recente política aprovada no Conselho Universitário, a Resolução n. 31, a qual estabelece a Política de Direitos Humanos da UnB, faz-se necessário que cada pessoa reflita sobre suas ações e comportamentos e se permita conviver e aprender com as diferenças, para a potencialização individual e coletiva, porque do contrário o que se produz é sofrimento, dor e até mesmo morte.


A pluralidade de culturas existentes na UnB é o que faz dela uma das melhores instituições de ensino do mundo e, para continuar atingindo metas cada vez mais otimistas, será preciso o esforço de todas, todos e todes com vista a um ambiente solidário, amistoso e saudável pautado na coletividade, no respeito e no acolhimento das diferenças.

 

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