OPINIÃO

Isaac Roitman é doutor em Microbiologia, professor emérito da Universidade de Brasília, coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro (n.Futuros/Ceam/UnB), membro titular de Academia Brasileira de Ciências. Ex-decano de Pesquisa e Pós-Graduação da UnB, ex-diretor de Avaliação da Capes, ex-coordenador do Grupo de Trabalho de Educação, da SBPC, ex-subsecretário de Políticas para Crianças do GDF. Autor, em parceria com Mozart Neves Ramos, do livro A urgência da Educação.

Isaac Roitman

 

Não é simples definir a felicidade. Ela é abordada pela filosofia, pela psicologia e pelas religiões. Os filósofos associam a felicidade com o prazer, uma vez que é difícil definir a felicidade como um todo, de onde ela surge e os sentimentos e emoções envolvidos.

 

Sigmund Freud abraçava a tese que todo indivíduo é movido pela busca da felicidade, mas essa busca seria utópica, uma vez que, para ela existir, não poderia depender do mundo real, onde as pessoas têm experiências com o fracasso, portanto, o máximo que o ser humano poderia conseguir seria uma felicidade parcial.

 

A doutrina religiosa budista também analisou a felicidade como um dos seus temas centrais. O budismo acredita que a felicidade ocorre através da liberação do sofrimento e pela superação do desejo, através do treinamento mental.

 

A felicidade é uma somatória de momentos encantados, como, por exemplo, contemplar a alegria e o sorriso de uma criança, como registrado no pensamento e sensibilidade de Charles Chaplin: “Não preciso me drogar para ser um gênio; não preciso ser um gênio para ser humano; mas preciso de seu sorriso para ser feliz.”

 

Para as pessoas contaminadas pelo consumismo e acúmulo de riquezas, o poder e o dinheiro são construtores da felicidade. Grande equívoco que a nossa consciência revelará, cedo ou tarde. Tem razão Arthur Schopenhauer quando disse: “A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças do que nos nossos bolsos.”

 

Estamos vivendo tempos preocupantes no Brasil e no Mundo. A vergonhosa desigualdade social, o abandono dos princípios éticos, a destruição da natureza, uma educação ultrapassada, o desemprego, os moradores de rua, o desespero das classes mais vulneráveis, a falta de perspectivas para os jovens e outras mazelas causam infelicidade e fazem parte do presente e ameaçam o nosso futuro.

 

É a hora de mudar o jogo. Todas e todos temos o direito de ter uma vida digna e feliz. Existem no planeta um número considerável de seres humanos que construíram projetos virtuosos que precisam virar realidade. Isso é possível. Vamos usar como princípio o pensamento de Alexandre Herculano: “O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros.” Creio que podemos chegar no formato imaginado por Carlos Drummond de Andrade: “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”

 

A luta não será fácil. Muitas pedras no caminho. Nessa aventura, em momentos difíceis, vamos nos lembrar dos versos inspiradores de Lupicínio Rodrigues: “Felicidade foi-se embora / E a saudade no meu peito ainda mora / E é por isso que eu gosto lá de fora / Porque sei que a falsidade não vigora / A minha casa fica lá detrás do mundo / Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar.”

 

Concluindo, parodiando o Hino da República, vamos cantar com emoção e patriotismo: “Felicidade, felicidade / Abre as asas sobre nós! / Das lutas na tempestade / Dá que ouçamos tua voz!”.

 

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Publicado originalmente no Monitor Mercantil em 17/9/2021

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