OPINIÃO

Gabriel Dorfman é graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com especialização em Arquitetura Habitacional pela Universidade do Rio Grande do Sul, mestrado em Engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorado em Arquitetura pela Technische Universität Berlin. Pós-doutorado na Technische Universitaet Berlin (2006-2007. Professor associado do Departamento de História da Arquitetura e do Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília.

Gabriel Dorfman

 

A tragédia humana e ambiental ocorrida na cidade de Brumadinho, Minas Gerais está prestes a completar três anos; nesse meio-tempo, a pandemia de Covid 19, com suas centenas de milhares de mortos, ajudou a acelerar o processo de esquecimento coletivo de um evento que, mesmo tendo matado diretamente um número muitíssimo menor de pessoas, continuará ainda por muitas décadas ocupando lugar de destaque na crônica das grandes tragédias que se abateram sobre os brasileiros e seu país. Assistir a maneira desassombrada com que a Companhia Mineradora Vale do Rio Doce se tem permitido fazer intensas e vistosas campanhas publicitárias, nas quais ela se apresenta como defensora do meio-ambiente e de sua proteção, tem contribuído para tornar ainda mais amarga e paralisante a lembrança da gigantesca e indelével destruição ambiental e de vidas ocorrida naquela ocasião. Justamente isto – o fato de que, três anos depois daquele trágico evento, a Vale do Rio Doce se permita lançar uma caríssima campanha publicitária onde se apresenta como defensora da vida e do meio-ambiente, ao mesmo tempo em que volta a ocupar lugar privilegiado no rol das empresas brasileiras consideradas “de ponta” – se oferece como oportunidade tristemente didática para pôr a nu uma confusão que vem causando sérios prejuízos à economia brasileira, à vida de milhões de pessoas tolhidas em suas trajetórias profissionais e à própria cultura nacional: a confusão entre os conceitos de Produtividade e Rentabilidade.

 

São conceitos bastante simples, acessíveis mesmo aos que não dominam o jargão das assim chamadas “Ciências Econômicas”: enquanto “produtividade” se refere à razão entre o valor criado e os recursos consumidos em um determinado processo econômico, “rentabilidade” diz respeito à mera taxa de rendimento de um investimento qualquer. Ou seja: enquanto para a mensuração da produtividade de um processo interessa sobremaneira a qualidade do produto nele gerado, seja ele qual for, para a avaliação da rentabilidade de um investimento, nada interessa, além do lucro gerado por esse investimento, medido em intervalos de tempo pré-definidos e comparado com o volume de recursos investidos.

 

Quando a tragédia de Brumadinho aconteceu, a Vale do Rio Doce estava em plena tendência de valorização de seus ativos e de suas ações; beneficiava-se diretamente do encarecimento das matérias-primas que extrai do subsolo e exporta para países do mundo todo, e recuperava-se a pleno vapor da tragédia ocorrida três anos antes em Mariana, Minas Gerais ; a bem da verdade, já muito pouco se falava da tragédia de Mariana quando ocorreu a tragédia de Brumadinho. Quando o assunto era a “Companhia Mineradora Vale do Rio Doce”, o tom predominante era de confiança e otimismo, face à rapidez com que a empresa se recuperara dos prejuízos causados pela tragédia de Mariana e face aos lucros respeitáveis que suas operações estavam gerando para a própria empresa e, por extensão, para seus acionistas (dentre eles, o Estado brasileiro). Devido justamente a essa situação extremamente favorável desfrutada pela empresa e seus acionistas, a equipe de seus dirigentes era vista então como detentora de uma capacidade administrativa excepcional – a equipe gozava de prestígio e reconhecimento entre todos os observadores da economia nacional.

 

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