OPINIÃO

Berenice Bento é professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás, mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília, doutora pela UnB/Universidade de Barcelona e pós-doutora pela CUNY/EUA.

Berenice Bento

 

No dia 31 de janeiro de 2022, foi publicado o artigo “Somos judeus de esquerda” , texto assinado por seis sionistas e que tinha como objetivo “tentar restabelecer a verdade e a justiça” em relação à questão palestino-israelense. Vejamos quais “verdades” e “justiça” são mobilizadas pelos autores.

 

A construção da falsa simetria

 

O texto “Somos judeus de esquerda” diz: “Dói ver nossas lideranças condenando o bombardeio de Gaza por solidariedade aos familiares das vítimas palestinas, sem uma palavra sequer sobre as famílias israelenses (...)”.
A urdidura do texto sugere que há uma simetria de dores e perdas entre israelenses e palestinos.


O mesmo artigo traz ainda: “Para qualquer mãe a morte de um filho é uma perda irreparável, seja ela israelense ou palestina. A dor no peito é a mesma”. Não há dúvidas de que a dor das mães e familiares é imensa. Insuportável. Concordamos. São vidas que merecem ser pranteadas, enlutadas. Mas qual o truque retórico aqui? Cito uma passagem do artigo do historiador Sayid Marcos Tenório, “Israel e o genocídio silencioso de crianças palestinas”:


“Durante o massivo ataque de “Israel” contra Gaza [...] foram 2.200 palestinos mortos, entre eles 550 crianças, 70% delas com menos de 12 anos de idade, e foi responsável por mais de 11.000 feridos, sendo 3.358 crianças, e por mais de 100 mil deslocados durante os atentados daquele ano, segundo o relatório anual do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) da ONU. Do lado do agressor israelense, 73 pessoas morreram, incluindo 67 soldados .”

 

Uma conta simples. Em 2014, 2200 palestinos mortos e 73 israelenses. Ou seja, a vida de um israelense vale 30 vezes mais que a vida de um palestino. Ao não dizer nada sobre a desproporcionalidade da força militar dos dois lados, o texto nos leva para o mundo da ilusão, segundo a qual as necropolíticas do colonizador e a resistência do povo colonizado têm a mesma densidade ética. A demanda pela distribuição igual do luto é um truque para esconder o genocídio.

 

No último massacre, em maio de 2021, quase cem crianças palestinas foram assassinadas. E quantas israelenses? Nenhuma. A farsa da simetria me faz lembrar de uma fala do Cabo Anselmo, espião da ditadura militar dentro da esquerda. Em uma das entrevistas, perguntado se ele não sentia nenhum tipo de dilema ético por ter sido o responsável pela Chacina da Granja de São Bento, em 1973, que vitimou 06 pessoas, entre elas sua namorada grávida, a Soledad Barrett, ele respondeu: “era uma guerra.”


Não era uma guerra. Era uma ditadura atroz e o que fazíamos era, com nossos parcos recursos, lutar pela democracia e pela vida. Não há guerra entre Palestina e Israel. Há genocídio. Quem perde as terras são os palestinos. Quem é humilhado e executado nos checkpoints são os palestinos. Quem são os apátridas?

 

Clique aqui para ler o texto na íntegra.

 

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Publicado originalmente em Outras Palavras em 15/02/2022.

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