OPINIÃO

Marcela Duarte D' Alessandro é mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília, com MBA em Gestão da Comunicação nas Organizações pela Fundação Universa/Universidade Católica de Brasília e especialização em Assessoria em Comunicação Pública pelo Instituto de Educação Superior de Brasília. Graduada em Comunicação Social, habilitação Jornalismo, pelo Centro Universitário de Brasília. Servidora pública, atua como jornalista na Secretaria de Comunicação da UnB. Mãe da Ana e da Mel.

Marcela D'Alessandro

 

Recebi o convite para escrever um artigo especial para o Dia das Mães. Fiquei surpresa e feliz com o desafio, aceitei. Na sequência, veio a dúvida: será que deixo a inspiração fluir e escrevo isso de casa, na hora em que as meninas (minhas filhas) dormirem? Ou faço mesmo durante o expediente na UnB?


Ao refletir, percebi que só esse pensamento já chama a atenção para um contexto muito específico da maternidade atual: mesmo com trabalho 100% presencial, tenho resquícios do trabalho remoto exigido pela pandemia – o certo seria eu nem cogitar escrever o artigo na minha hora de “descanso”, mas o costume após dois anos bem isolada ainda fala forte dentro de mim. Nesse período, trabalhar e cuidar de criança pequena e bebê (e casa, roupa etc.) foi realmente um desafio gigantesco... limites colocados à prova a cada dia e afazeres executados nas mais variadas janelas de tempo.


Fora desse contexto, vale também a reflexão sobre a realidade da mãe que trabalha fora. No meu caso, foi: “ai, meu Deus, e se eu não der conta do recado?” A dificuldade de concentração (são anos de privação de sono, além de toda uma readaptação ao mundo fora de casa), a velocidade (ou seria melhor a “lentidão”?) de produção, a enxurrada de pensamentos, preocupações e providências a tomar, e também o receio de decepcionar, todos esses quesitos devem ser considerados. Permeiam quase todos os minutos dos meus dias, porque mesclam questões pessoais e profissionais.


Inclusive, eles se misturam com os questionamentos internos sobre ser ou não uma boa mãe. Eu amo amo amo minhas filhas... amoooo ser mãe... não me imagino nesta vida sem passar por isso. Mas, que baita desafio!!! Não é só a entrega total para cuidar daqueles “serumaninhos”, que não sabem se alimentar, se vestir, se entreter, dormir sozinhos... é também educá-los – e, nossa, como é difícil!!! Muitas vezes parece até que eles vieram a esse mundo só para testar nossos limites, nossa paciência, nossas crenças, nossa capacidade de adaptação e de crescimento junto com eles. Nos levam do céu ao inferno numa fração inimaginável de segundos!


Mas também são capazes do contrário com apenas um sorriso ou um abraço gostoso ou um “eu te amo” inesperado. Como é delicioso receber um papel todo colorido, com uns bonequinhos desenhados, uns corações rosas, no meio de uma reunião! E como é maravilhoso ver o tanto que sua bebê já entende, se comunica, pede música e dança... é incrível! Ver a alegria das duas se divertindo juntas, mesmo com as idades ainda fazendo diferença, é impagável. Assistir de camarote ao desenvolvimento delas é o máximo. Recomendo!! E o que são dois, três, cinco anos de noites mal dormidas, em uma vida de 80, por exemplo? Nada... acho que posso doar meu tempo e bem-estar por esse período para essas duas meninas incríveis, razões do meu viver, presentes de Deus na minha vida.


Mas se tem uma coisa que ficou clara pra mim foi: idealmente, só deve mesmo ter filho quem quer. Passei a respeitar mais ainda quem não quer tê-los. Porque, realmente, é uma imersão num mundo totalmente novo, com milhares de variáveis; como falei, são limites colocados à prova todos os dias. E é uma mudança em nossas vidas pra sempre, fato. Desde a concepção.


Quando engravidamos já começa um processo de mudança interna que vai sendo “gestado” junto o bebê. Passamos a comer e beber (e tomar remédios) pensando se aquilo vai fazer bem ou mal ao bebê na barriga... se vai agitá-lo, interferir em seu desenvolvimento, fazê-lo “querer sair” antes do tempo ou retardar sua chegada a esse mundão; passamos a balizar melhor atividades, combinados, esforços; e, inevitavelmente, somos obrigadas a olhar pra nós mesmas e ter um cuidado que antes não necessariamente tínhamos... comer bem, mais regularmente, descansar, se alongar, se exercitar e... dormir. Porque a partir deste momento em que carregamos no ventre um ser (ou mais), deixamos de ser apenas o eu-mulher e viramos o eu-casa, sem abandonar o eu-mulher, o eu-indivíduo, o eu-esposa, o eu-profissional, o eu-filha...


Quando engravidamos, agregamos um novo papel, permanente, à nossa vida. Já não comemos qualquer coisa, lemos rótulos, bulas, queremos saber um pouco mais sobre o desenho que está passando na televisão e parece interessante, queremos pesquisar escolas – será que tem uma perto de casa ou do trabalho que tenha espaço aberto, horta, seja bilíngue, foque o livre-brincar, seja financeiramente acessível? Eita! Tem eleições este ano, né? Alguma novidade? E a guerra na Ucrânia, como está? Espera! E a pandemia, quais os números atuais? A máscara caiu, mas já é mesmo hora de tirar? E a inflação? Nossa, preciso botar gasolina no carro! Preciso ir à farmácia... puxa, esqueci de remarcar a pediatra! Oops, hora de buscar as meninas na creche!


Parece brincadeira, mas é real. É tanta coisa na cabeça, que também é interessante iluminar as condições que as mães têm de ter de dar conta de tudo isso e ainda chegar ao trabalho, desempenhar suas atividades de forma produtiva (leia-se, da melhor maneira possível), lidar com adversidades intrínsecas a esse ambiente e tudo o que ele exige. Cada vez mais admiro a diversidade, a pluralidade e, mais do que tudo, a força e a versatilidade das mães. Viva nós!

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