OPINIÃO

Marcus Tanaka de Lira é professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução (LET/UnB), doutor em linguística e diretor do Instituto Rei Sejong Brasília (IRS-BSB).

Marcus Tanaka de Lira*

 

Por milhares de anos, a humanidade viveu sem escrita. Nesse tempo era impossível registrar ideias, escrever mensagens ou dar cinco estrelas para aquele motorista de aplicativo que salvou seu dia. Era um mundo sem cartas de amor, Dom Casmurro ou comentários do Youtube.  

A invenção da escrita foi tão genial que ela ocorreu mais de uma vez pelo mundo, e os vizinhos dos inventores não tardaram em ver o apelo. Só que, quando se vive ao lado da China, o sistema de escrita à sua disposição é um formado por milhares de ideogramas feitos para uma língua que não é bem a sua. Para os coreanos, o mandarim era tão incompreensível quanto deve ser para você. Era como ganhar um jogo de colheres numa churrascaria: até reconhecemos a praticidade dos utensílios, só que não são lá os mais adequados.  

E assim foi quando a escrita chinesa chegou à península coreana. Ao mesmo tempo que os coreanos reconheciam a utilidade dos ideogramas, de início eles entendiam bulhufas do que estava escrito. E, como erudição e criatividade raramente andam juntas, a reação inicial dos escribas foi continuar escrevendo em chinês. Se eles tinham aprendido tudo aquilo, que os outros também o fizessem.

Mas, desde os primórdios da humanidade, as pessoas sempre deram um jeitinho. Gente é gente em todo lugar. Os monges locais começaram a usar os ideogramas não pelo significado, mas pelo som. Por exemplo, um monge tupiniquim que quisesse escrever “água” em português, poderia pegar 阿 (a) e 寡 (gua) e formar 阿寡 (agua). Assim, em vez de aprender milhares de ideogramas e usar o ideograma original 水 para água, nosso intrépido lusófono precisava apenas saber um símbolo para cada sílaba. Gambiarra? Sim. Complicado? Também.

Então eis que o quarto rei da dinastia Joseon, o Rei Sejong, pediu ao seu Salão de Notáveis que o ajudasse a criar um sistema de escrita tão fácil que qualquer um pudesse aprender. Em 1446 foi então publicado o Sons Certos para Instrução do Povo, o manual de instruções do Hangul, nome do alfabeto coreano. Nele, as consoantes são escritas com variações de cinco símbolos (ㅁ ㄴ ㅅ ㄱ ㅇ) e as vogais com variações de três símbolos (ㆍ ㅡ ㅣ).  

Não dá para ensinar todas as regras aqui, mas tudo segue uma lógica: consoantes parecidas com ㅁ são pronunciadas com os lábios por simbolizar a boca (ㅁ m, ㅂ b, ㅍ p), as letras são organizadas em blocos silábicos e daí por diante. Assim, bibimbap, ou mexidão de arroz (que recomendo!), se escreve 비빔밥. Diz-se no manual que até a mais tapada das pessoas aprende a ler em até dez dias. Fácil? Sim. Maravilhoso? Também.

Mas, desde os primórdios da humanidade, as elites protegem o que as diferencia. Gente é gente em todo lugar. Os letrados confucionistas torceram o nariz à simplicidade do Hangul, e o rei Yeonsangun chegou até a bani-lo. De forma gradual, porém, a escrita foi sendo adotada pelos populares, até que em 1894 começou a ser usada em documentos oficiais do governo e em 1895 em livros didáticos para crianças. Você leu certo, foi quase 450 anos (e mais umas revisões) depois da sua publicação.

Isso faz com que o Hangul, utilizado por mais de 80 milhões de pessoas, seja o alfabeto mais difundido para o qual conhecemos os detalhes de sua criação. A popularidade do seu criador é tamanha que a avenida defronte ao principal palácio de Seul, e na qual há hoje uma estátua do Rei Sejong, é justamente a Avenida Sejong. Claro que outros reis coreanos também se dedicaram às ciências e à cultura, como o Rei Jeongjo, e há outras figuras populares, como o Almirante Yi Sun-shin. Mas, a escrita é central para o povo coreano, e tem até um feriado dedicado a ela, o Dia do Hangul. De norte a sul, com isso os coreanos concordam.

Por isso o Instituto Rei Sejong Brasília comemora anualmente o Dia do Hangul, marcando em 2022 nossa volta a grandes eventos presenciais. É uma chance de mostrarmos um pouco da escrita e cultura coreanas, dizermos onde aprender de graça, interagirmos com a universidade e levarmos à sociedade a reflexão: se você fosse imperador(a), faria algo assim também?

 

 

 

* Membro do Núcleo de Estudos Asiáticos (Neasia/Ceam), encontra-se atualmente em pós-doutorado no departamento de linguística e ciências cognitivas da Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, na República da Coreia, onde pesquisa as origens das línguas do nordeste asiático, como coreano e japonês. 

 

ATENÇÃO – O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor, expressa sua opinião sobre assuntos atuais e não representa a visão da Universidade de Brasília. As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seu conteúdo.