OPINIÃO

Suélia de Siqueira Rodrigues Fleury Rosa é professora na Faculdade de Ciências e Tecnologias em Engenharia (FCTE) na Universidade de Brasília. Coordena projetos que integram pesquisa, desenvolvimento e inovação (PDI), com forte ênfase em aplicações de impacto social.

Suélia de Siqueira Rodrigues Fleury Rosa

 

O Dia Mundial do Diabetes, comemorado em 14 de novembro, serve como lembrete de que o conhecimento científico pode — e deve — ser cuidado. No Brasil, o diabetes acomete mais de 16 milhões de cidadãos e, entre suas complicações, o pé diabético aparece como uma das mais dolorosas e incapacitantes, sendo responsável por cerca de 50 mil amputações anuais. Foi nesse contexto que surgiu o RAPHA, uma tecnologia genuinamente brasileira que transforma o látex natural da Amazônia em um importante aliado da regeneração tecidual.

 

O RAPHA é resultado de quase duas décadas de pesquisa translacional completadas na Universidade de Brasília (UnB) em 2005 através da qual, na condição de doutoranda, eu identifiquei o potencial angiogênico do látex, da seringueira Hevea brasiliensis, sua capacidade em estimular a neovascularização e acelerar a cicatrização. A partir dessa descoberta, uma equipe multidisciplinar constituída por pesquisadores, engenheiros, profissionais da saúde e estudantes uniram-se para desenvolver uma alternativa acessível para o tratamento de feridas crônicas. O equipamento combina curativos de látex natural com emissores de luz LED, aplicados de forma simples, segura e indolor.

 

Essa integração entre biomateriais e fototerapia resultou em um sistema híbrido capaz de estimular a regeneração de tecidos, especialmente em lesões decorrentes do diabetes. A trajetória do RAPHA é também a história da persistência da academia brasileira. Em 2009, sob minha orientação, a doutoranda Maria do Carmo dos Reis fez a defesa da primeira tese que materializou o equipamento. A partir daí, das etapas seguintes participaram dezenas de alunos de graduação, mestrado e doutorado, professores, pesquisadoras e profissionais de saúde, em experimentos pré-clínicos e nas pesquisas clínicas em hospitais públicos parceiros, e com o suporte de comitês de ética, órgãos de fomento e instituições da UnB, como a Agência de Inovação (ACT) e o Núcleo de Inovação Tecnológica (NUPTEC).

 

Entre 2017 e 2019, apoiado pelo Ministério da Saúde, CNPq, CAPES, FAPDF, Parlamento Federal e instituições como o IEEE, o projeto chegou à sua fase clínica e solidificou o que chamamos de “pesquisa translacional em saúde”: a travessia do laboratório para o leito do paciente. Nos dias de hoje, o RAPHA é uma tecnologia licenciado para a empresa brasileira Life Care Medical, a qual, em colaboração com a UnB, avança em busca da certificação regulatória junto à ANVISA e ao INMETRO, com o objetivo de disponibilizar o dispositivo ao Sistema Único de Saúde (SUS), para que alcance clínicas e hospitais públicos, beneficiando os pacientes que hoje correm risco de amputações, por conta da ausência de alternativas terapêuticas acessíveis.

 

Mais do que um equipamento, o RAPHA é um modelo de inovação que emerge do compromisso social da universidade pública com o país e representa o potencial da ciência brasileira quando sustentada por redes de cooperação, sensibilidade humana e persistência coletiva. Em cada ferida que cicatriza, há o trajeto da esperança: o da transformação do conhecimento em cuidado. O RAPHA é, em especial, uma homenagem a todos que acreditam que a ciência pode e deve curar.

 

 

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