Viviane de Melo Resende e Tchella Fernandes Maso
O INCT Caleidoscópio – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Desigualdades, Violências e Insurgências de Gênero e Sexualidade, sediado na Universidade de Brasília, parte de um princípio simples, mas urgente: não existe justiça climática sem justiça social, justiça de gênero e justiça econômica. Com esse espírito participamos da COP 30 como parte da Delegação da Sociedade Civil. Ao longo da primeira semana da COP, participamos de agendas sobre gênero e território na Zona Azul, na Zona Verde e na Cúpula dos Povos.
O enfrentamento à crise climática precisa ser pensado a partir dos territórios e das experiências concretas de mulheres, povos indígenas, comunidades tradicionais e corpos dissidentes, que há séculos sustentam formas de vida mais próximas à terra. Para sustentar esta mensagem, participamos de dois painéis na COP 30. No Pavilhão Pará, em 14 de novembro, organizamos o painel Parcerias da Universidade com Povos Indígenas para a Interculturalidade, parte do painel Direitos da Natureza. No painel promovido pelo INCT Caleidoscópio participaram Simone Eloy Terena, pesquisadora pós-doc do INCT, Yuri Kuikuro, pesquisador do Projeto Entre Ciências, do MCTI/GEF, e Luan Potiguara e Ludimar Nunes, mentorados do Programa Kuntari Katu, do MPI/MMA. Com esse painel, reforçamos nossas parcerias com povos originários e com agendas públicas pela justiça climática e epistêmica. No dia seguinte, 15 de novembro, participamos de outro painel, desta vez na Zona Verde, no stand do Consórcio Nordeste. O painel Justiça Climática e Territórios foi organizado pela Associação Brasileira de Municípios.
Na apresentação do INCT Caleidoscópio reforçamos nosso engajamento com uma ciência social engajada, plural e comprometida com a transformação. Destacamos, por exemplo, a Rede Arandu, vinculada ao INCT, que atua como um elo entre pesquisa, extensão e incidência política — articulando universidades, coletivos indígenas e instâncias governamentais na produção de conhecimento e tecnologias sociais.
Entre suas ações recentes, destacamos a Cartilha por Justiça Climática para Populações Indígenas LGBTQIAP+, uma iniciativa de comunicação científica acessível, criada para fortalecer o protagonismo dessas lideranças na formulação de políticas públicas. Essa cartilha faz parte de um conjunto de ações que colocam no centro a justiça de gênero e a justiça econômica como dimensões inseparáveis da justiça climática. No campo da comunicação e popularização científica feminista, também destaco a série de posts no Instagram do INCT Caleidoscópio dedicada ao debate conceitual em torno da COP e, no site do Observatório Caleidoscópio e em nosso canal no Youtube, os seminários que têm fornecido uma série de indicadores e análises sobre violências raciais, étnicas e de gênero e sexualidade, também pensando em racismo ambiental. O primeiro seminário deste ano focalizou a COP30 e mulheres rurais.
Em articulações com o poder público, no último ano, a Arandu consolidou parcerias institucionais com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). Com o MPI, participamos da formulação e execução do Programa Tecendo Direitos, que fortalece coletivos indígenas LGBTQIAPN+ em todo o país, promovendo escuta territorial e coformulação de políticas públicas. Já com o MDHC, a Arandu atua no Programa Bem Viver+, que promove o diálogo entre saberes tradicionais e políticas de cuidado, saúde e sustentabilidade.
Outra iniciativa do INCT Caleidoscópio que enfatizamos no painel é a Incubadora Social Feminista e Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal, que atua sobretudo em parceria com mulheres quilombolas pesquisadoras. Nesse âmbito, destacamos o reconhecimento de que as mudanças climáticas impactam diretamente as trajetórias educacionais (acesso, permanência e progressão nas carreiras científicas) de mulheres quilombolas e rurais. Isto vale, inclusive, para os efeitos dos empreendimentos de usinas fotovoltaicas e eólicas.
Reconhecemos que alianças entre mulheres quilombolas e projetos como o INCT Caleidoscópio podem produzir instrumentos pactuados que nos permitam avançar na direção da construção de políticas públicas que visem mitigar danos e fabular outros presentes. Para isto, a Incubadora Norte Nordeste atua em atividades de ensino, pesquisa e extensão. Uma destas iniciativas, em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, resultou na construção de tecnologia social que permite caracterizar, de modo ampliado, barreiras de acesso, permanência e progressão na carreira de pesquisadoras quilombolas.
De outra parte, a Incubadora Social Centro-Oeste, sediada na UnB, está dedicada a indígenas mulheres nas ciências e às ciências produzidas pelos povos indígenas. Reconhecemos que, para seguir relevante, o saber acadêmico moderno precisa ser urgentemente ampliado a partir de outros saberes e outras ciências, que desenvolveram outros métodos e partem de outros entendimentos do mundo. Com parceria do Ministério dos Povos Indígenas, e iniciativa da Incubadora Centro-Oeste, o INCT Caleidoscópio promove o I Seminário Nacional de Indígenas Pesquisadoras, que reunirá indígenas mulheres dos seis biomas para falar de ciência na Universidade de Brasília, nos dias 10, 11 e 12 de dezembro.
O encerramento desse seminário será uma mesa em que nossas convidadas debaterão os alcances e limites desta COP30 desde o seu olhar situado nos territórios. Além disso, a Rede Arandu, em articulação com o Grupo de Pesquisa de Relações Internacionais e Meio Ambiente (GERIMA), também está comprometida em realizar uma análise pós-COP30 a partir da perspectiva dos povos indígenas, observando como seus direitos, saberes e propostas foram considerados — ou silenciados — nas negociações climáticas.
Essas análises críticas buscarão avaliar o alcance e as limitações da diplomacia climática internacional à luz das epistemes indígenas e das práticas de resistência territorial, fortalecendo a produção de conhecimento situado e decolonial sobre a agenda global do clima. Essas múltiplas parcerias têm permitido que nossas pesquisas se transformem em tecnologias sociais — metodologias e ferramentas criadas junto às comunidades e que produzem efeitos diretos sobre a governança, a educação e a ação climática. São tecnologias que territorializam o debate, tornando a universidade mais permeável às epistemes e práticas de povos e comunidades tradicionais, e que mostram que o conhecimento é também uma forma de demarcação.
Nosso papel como pesquisadoras é apoiar, visibilizar e sustentar esses processos, transformando o conhecimento em política pública e o cuidado em horizonte de transformação. A Rede Arandu e o INCT Caleidoscópio caminham com esse compromisso: tecer pontes entre a ciência e os territórios, entre o Estado e os movimentos, entre o conhecimento e a vida.
Isso significa repensar não apenas as causas e os efeitos das mudanças climáticas, mas também as condições materiais e simbólicas de quem mais sofre e menos decide sobre as soluções. Essa é a nossa contribuição à agenda de gênero e clima — fazer da pesquisa um ato de justiça, de escuta e de transformação coletiva. Nossa presença na COP30 reforça o compromisso com uma ciência feminista, interseccional e comprometida com a justiça climática, a justiça epistêmica e a transformação social.
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