OPINIÃO

Maria do Socorro Neri de Sousa é diretora da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (BCE/UnB). Mestre em Ciência da Informação pela UnB.

Maria do Socorro Neri de Sousa

 

O primeiro ano à frente da Direção da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (BCE) na Gestão 2024-2028 (Rozana Naves e Marcio Muniz) foi marcado por entusiasmo, energia e compromisso com uma agenda de escuta ativa, integração institucional e melhoria contínua dos processos já existentes. Desde os primeiros dias, compreendemos que uma biblioteca universitária — sobretudo uma unidade com o porte e a capilaridade da BCE — precisa alinhar seus processos ao princípio da participação e colaboração, para que as decisões reflitam as necessidades reais da comunidade acadêmica e do público em geral. Assim, os dois primeiros meses foram inteiramente dedicados às reuniões internas com coordenações e setores, constituindo espaços de fala e escuta que permitiram mapear demandas, desenhar soluções e consolidar um plano de gestão participativo. Esses encontros, férteis em ideias e iniciativas, também se estenderam às bibliotecas setoriais (FCTS, FCTE, FUP, FAU, HUB)*, fortalecendo uma visão sistêmica da rede de bibliotecas e promovendo coerência entre diretrizes, indicadores e práticas de atendimento.

 

Paralelamente, priorizamos a articulação com unidades estratégicas da UnB. A primeira agenda com a Secretaria de Tecnologia da Informação (STI) deu origem a um Grupo de Trabalho voltado a diagnosticar e propor soluções para sistemas de informação, sites, bibliotecas digitais, repositórios e conectividade. Em sessenta dias, o GT apresentou seu primeiro diagnóstico e seguiu implementando melhorias, com ênfase em segurança digital e resiliência dos serviços de informação — um passo fundamental para garantir integridade, disponibilidade e proteção de dados, bem como elevar a experiência do usuário em ambientes digitais. Também avançamos nas tratativas com a Prefeitura do Campus (PRC) para zerar processos SEI e encaminhar demandas à INFRA, com ênfase em manutenção predial, elétrica e de infraestrutura (incluindo a reforma da copa, instalação de plataforma elevatória na entrada da Biblioteca), além do acompanhamento integral da reforma da fachada pela equipe da INFRA.

 

A escuta às equipes evidenciou, desde cedo, a urgência de investimentos em formação para o atendimento ao público. O perfil da comunidade que frequenta a BCE é diverso, plural e multifacetado, e requer preparo específico para acolher pessoas neurodivergentes, LGBTQIA+, com deficiência e o público em geral, em consonância com princípios de respeito, inclusão, acessibilidade e diversidade. Em fevereiro, a Diretoria de Acessibilidade ofereceu uma formação para os servidores da BCE, reafirmando o valor da capacitação contínua e orientando práticas de atendimento mais sensíveis e qualificadas. Nesse campo, iniciativas como a parceria com a APAE (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) — que utilizam a BCE como espaço formativo promovendo a preparação para o desenvolvimento de atividades laborativas em técnicas de conservação de acervos. Também vale ressaltar o projeto “Juntos na Leitura”, voltado à leitura crítica e ao combate à desinformação entre colaboradores terceirizados, o qual se destaca pela coerência com a missão da biblioteca e por atravessar contextos adversos, inclusive durante a greve dos servidores técnicos em que o projeto continuou rodando.

 

A construção de alianças, essencial ao fortalecimento institucional, incluiu reuniões com diferentes Decanatos, cujas interfaces com a BCE são decisivas para o desempenho acadêmico e para a reputação da Universidade. Com o Decanato de Ensino de Graduação, alinhamos processos de avaliação de cursos (Visita MEC); com o Decanato de Pós-Graduação (DPG), avançamos na avaliação dos programas; com o Decanato de Gestão de Pessoas, tratamos de temas de desenvolvimento e valorização das equipes; com o Decanato de Pesquisa e Inovação, discutimos editais de fomento à publicação científica; com o Decanato de Extensão, desenhamos projetos de extensão na BCE; com o Decanato de Planejamento, Orçamento e Avaliação Institucional, tratamos de recursos e indicadores; e com o Decanato de Administração e Finanças, tratamos de processos licitatórios, contratos, compras de livros e assinaturas de bases de dados. Esse circuito de governança colaborativa reforça a vocação da biblioteca como infraestrutura acadêmica crítica e como plataforma de serviços que sustenta ensino, pesquisa, extensão e inovação.

 

O início da greve dos servidores técnicos, em 20 de março de 2025, exigiu o fechamento temporário da BCE, uma medida difícil e sentida por toda a comunidade. Mesmo assim, a continuidade dos acervos digitais — bases de dados, repositório institucional, bibliotecas digitais, portais de livros e periódicos — mitigou parte do impacto, assegurando acesso remoto a conteúdos essenciais. Muitos projetos seguiram ativos, ainda que alguns tenham sido interrompidos em momentos específicos. Entre as ações que mantiveram vivo o vínculo da BCE com a sociedade, destaca-se a participação na primeira Feira de Oportunidades da UnB, ocasião em que nosso estande trouxe ao público uma síntese dos serviços e das potencialidades da Biblioteca, constatação também observada durante o evento da Semana Universitária, reafirmando o compromisso de levar a UnB para além de seus “muros”.

 

Esse ciclo permitiu identificar pontos fortes e oportunidades de melhoria, com destaque para um desafio contemporâneo e transversal: o uso responsável de ferramentas de inteligência artificial generativa no contexto acadêmico e biblioteconômico. A BCE precisa avançar, em conjunto com unidades acadêmicas norteadoras, na definição de diretrizes que orientem usos pedagógicos e de pesquisa, assegurando integridade acadêmica, literacia informacional e ética digital. Esse esforço é indissociável do fortalecimento de políticas de acessibilidade tecnológica, proteção de dados e capacitação de usuários para crítica das fontes e compreensão dos vieses algorítmicos.

 

Se por um lado os desafios são amplificados pela escala e pelo funcionamento da BCE — uma unidade com grande fluxo, que opera 24 horas de segunda a sexta e, nos fins de semana e feriados, das 7h às 19h — por outro lado, a centralidade da missão da UnB nos orienta. Em meio a muitos quereres e expectativas legítimas, a convergência se dá quando colocamos a Universidade no centro da razão de ser da biblioteca: servir com excelência à comunidade acadêmica e à sociedade no ensino, pesquisa e extensão. Esse norte clareia prioridades como: ampliação da infraestrutura tecnológica e física; qualificação permanente das equipes; expansão de serviços e acervos físicos, especiais e digitais; promoção de cultura e arte como dimensão formativa; e fortalecimento de ações de extensão que conectem o conhecimento produzido na UnB a demandas sociais concretas.

 

Em perspectiva, nossas metas se alinham aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU: ODS 4 (Educação de Qualidade), ao democratizar o acesso à informação, promover literacia informacional e apoiar a permanência estudantil; ODS 10 (Redução das Desigualdades), ao investir em acessibilidade, formação das equipes e inclusão de públicos historicamente sub atendidos; ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes), ao garantir governança participativa, transparência e melhorias de processos; e ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação), ao tecer redes com STI, PRC, INFRA, Decanatos, bibliotecas setoriais e parceiros externos como a APAE. Essa integração traduz a convicção de que bibliotecas são motores de desenvolvimento humano e institucional.

 

O primeiro ano foi, portanto, um exercício de escuta, planejamento e ação — com vitórias substantivas e aprendizados que nos preparam para o que precisa ser conquistado: diretrizes para o uso de IA generativa; consolidação de um programa permanente de formação em atendimento inclusivo; robustecimento de infraestrutura física e digital; ampliação de acervos e serviços alinhados às necessidades curriculares e científicas; e a intensificação dos incentivos à arte e à cultura como experiências formativas, por meio de cineclubes, clubes de leitura e vinil, oficinas de conservação e restauração, programas de letramento (racial, ambiental) e outras atividades que aproximam a BCE de um ecossistema cultural vivo, plural e crítico.

 

Por fim, registramos nosso reconhecimento e gratidão a todas e todos que fazem a BCE: servidores, colaboradores terceirizados, coordenações, chefias e Direção Adjunta, além dos nossos usuários. Juntos, atravessamos um ano desafiador e promissor, reafirmando que somos mais fortes na colaboração e que somos todos UnB, com a Biblioteca como ponte entre conhecimento, cidadania e futuro.

 

*FCTS (Faculdade de Ciência e Tecnologia em Saúde); FCTE (Faculdade de Ciência e Tecnologia em Engenharia); FUP (Faculdade UnB Planaltina); FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo); HUB (Hospital Universitário de Brasília).

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