Agnaldo Cuoco Portugal
Talvez você tenha pensado que o título tenha ficado com um erro de digitação. Saindo nesta época do ano, deveria ser “tempo de Natal”. Mas o título é aquele mesmo. Nós vamos falar de Natal, só que antes vamos fazer uma breve reflexão sobre o tempo.
Como parte da atitude crítica que a caracterizaria, aquilo que depois viria a ser chamado de “Filosofia” tentou entender racionalmente o tempo e o percebeu inicialmente como problemático. É no tempo que aquilo que não era passa a ser e que aquilo que era passa a não ser. A mudança, o movimento – e o tempo no qual eles acontecem – não podem ser verdadeiros, mas apenas aparentes, diria Parmênides de Eleia no século VI a.C., pois o que é simplesmente é, e o que não é obviamente não é. Se o tempo permite contradizer essa verdade tão fundamental, então ele é algo a ser questionado.
Mas que o tempo passa e as coisas mudam são uma verdade fundamental também e a Filosofia teve que buscar um modo de entender isso de modo racional. Um passo decisivo na compreensão filosófica do tempo foi sua definição como “o número do movimento conforme o antes e o depois”, dada por Aristóteles na Física, aproximadamente dois séculos depois de Parmênides. Em outras palavras, o tempo passava a ser entendido como a medida do movimento, uma compreensão que teve enorme influência. Assim, podemos pensar o tempo como parte de como as coisas são em sua raiz mais profunda.
Porém, sendo uma estrutura fundamental da realidade, o tempo não deveria ser confundido com a medida de sua passagem. É nesse sentido que Newton vai distinguir o tempo relativo, externo e aparente, que medimos pelos relógios, do tempo absoluto que flui uniformemente, ou seja, da própria duração. O tempo absoluto seria a referência básica com a qual podemos entender o movimento. No começo do século XX, Einstein vai acrescentar novo capítulo a essa compreensão do tempo objetivo, ao contestar a ideia de que há “apenas um fluir de tempo ‘absoluto’ para todos os observadores” (A Evolução da Física, 1938). Na teoria da relatividade, o tempo que a pedra dura para cair no chão não vai ser igual para todos os que a veem. A razão disso é que o tempo é uma quarta dimensão dos acontecimentos no espaço, alterando-se com o comprimento, a largura e a profundidade quando se muda de referencial.
Mas o fato de ser uma realidade objetiva é apenas um aspecto do tempo. Outro modo importante de abordá-lo é como parte da maneira como percebemos nós mesmos, os outros e o todo. Agostinho de Hipona é uma referência central nessa perspectiva. Como um dos principais representantes da filosofia cristã, sua preocupação no livro XI de Confissões é com a pergunta “o que Deus fazia antes de criar o mundo?”. Sua resposta é que a questão não faz sentido, pois o tempo teria sido criado por Deus junto com o mundo e, portanto, que não havia um “antes” da criação. Deus é eterno e isso significa que não está submetido ao tempo. Se pensarmos bem, o tempo é paradoxal. Por um lado, ele parece evidente e indiscutível, mas, assim que tentamos entendê-lo, já não sabemos mais o que ele é. A razão dessa ignorância é que, se entendemos o tempo como dividido entre passado, presente e futuro, chegamos à conclusão de que não estamos falando de nada a rigor. O passado já não existe, o futuro ainda não existe e o presente deixa de existir a cada instante. A solução para o paradoxo, segundo Agostinho, está em perceber que o nada que constitui o tempo é elemento fundamental de nossa experiência, mas que não nos contentamos com esse vazio e, por isso, estamos em busca do eterno.
E com isso, chegamos ao Natal. A reflexão filosófica sobre o tempo aponta para suas múltiplas dimensões e outra delas é a seguinte. Parafraseando Cartola, o tempo é um moinho que tritura não apenas nossos sonhos, mas o próprio mundo. Com o tempo, as estruturas tendem a aumentar sua entropia. Muitas religiões, porém, falam de um tempo primordial em que o sagrado se manifestou de um modo especial e deu sentido a tudo. Esse tempo primordial é renovado periodicamente em momentos especiais, as festas. Ao tornar célebre e presente esse tempo especial, as religiões nos orientam em meio ao fluxo destrutivo e irracional do tempo. A celebração é um tempo que dá significado à existência. O Natal é um exemplo disso.
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