Norlan Souza da Silva
A expressão ‘quo vadis’, que vem do latim, significando ‘para onde vais?’, tem sua origem, no relato bíblico dirigido a Pedro, que fugia de Roma, e tem sido usada para questionar a direção de caminhos políticos, morais e civilizatórios. Após as ações do Governo Trump, dos Estados Unidos, no dia 3 de janeiro de 2026, com a invasão, captura e sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em território venezuelano, criou-se uma celeuma internacional, especialmente, na região da América Latina, uma vez que 24 horas depois, representantes da CELAC, isto é, Comunidade dos Estados Latino Americanos e Caribenhos. Muito se ponderou, mas pouco se prontificou em enfrentar tal situação que afeta diretamente todos nós, residentes e cidadãos da América Latina.
No contexto das relações internacionais da América Latina e da questão venezuelana, a expressão ‘quo vadis’, que lhe cai muito bem, poderia simbolizar alguns pontos importantes. Primeiro, o questionamento sobre o rumo da política regional, cuja intervenção dos Estados Unidos na Venezuela levanta questões sobre o futuro das relações internacionais e da soberania das nações latino americanas. Segundo, a crise da não-intervenção em crise ou políticas nacionais, visto que este tradicional princípio latino-americano confrontado com doutrinas de intervenção humanitária ou mudança de regime, mostra-se demasiadamente frágil a partir do fato acontecido. Terceiro, o futuro da integração regional, a partir da resposta dividida dos países latino-americanos à crise venezuelana revela fragilidade nos mecanismos regionais. Por fim, o dilema entre multilateralismo e unilateralismo, pois com a ação dos Estados Unidos contrasta com esforços de mediação regional e internacional.
Este fato, que ficará marcado dentro da história contemporânea das relações internacionais, me faz refletir sobre se realmente uma América Latina realmente existe. Esta reflexão despertou para mim, a partir do pensamento do mestre e professor Darcy Ribeiro, fundador da Universidade de Brasília, no qual reitera com a singela questão: “Existe uma América Latina?”. Uma breve análise sobre os caminhos da América Latina diante da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela em 3 de janeiro de 2026, à luz da obra América Latina de Darcy Ribeiro, exige compreender a profundidade histórica e estrutural das relações entre o continente e as potências externas, bem como os dilemas internos que atravessam a região. Darcy Ribeiro, ao analisar a formação histórica da América Latina, enfatiza que o continente é marcado por uma condição de dependência e subordinação, resultado de um processo colonial que se prolonga em formas neocoloniais de dominação. A intervenção norte-americana na Venezuela, nesse sentido, não é um episódio isolado, mas a continuidade de uma lógica histórica que coloca em xeque a soberania das nações latino-americanas e revela a fragilidade dos projetos regionais de autonomia.
O primeiro aspecto a ser considerado é o questionamento sobre o rumo da política regional. A intervenção dos Estados Unidos levanta questões cruciais sobre o futuro das relações internacionais na América Latina, pois expõe a incapacidade dos países da região de construir uma frente comum diante de ameaças externas. Darcy Ribeiro já alertava para a dificuldade de consolidar uma identidade latino-americana capaz de resistir às pressões externas, dado que as elites nacionais muitas vezes se alinham aos interesses das potências, em detrimento de projetos autônomos. A Venezuela, ao se tornar alvo de intervenção, simboliza o quanto a soberania latino-americana permanece vulnerável, e como o continente ainda não conseguiu superar a condição de periferia subordinada.
O segundo aspecto refere-se à crise do princípio da não-intervenção. Historicamente, a América Latina buscou afirmar esse princípio como um pilar de sua política externa, especialmente após as experiências de intervenção direta durante o século XX. Contudo, a intervenção de 2026 revela a fragilidade desse princípio diante das novas doutrinas de intervenção humanitária ou de mudança de regime, que são utilizadas como justificativas para ações unilaterais. Darcy Ribeiro, ao analisar a dependência estrutural da região, mostra que a autonomia política é constantemente corroída por mecanismos externos de controle, seja econômico, cultural ou militar. A crise da não-intervenção, portanto, não é apenas jurídica, mas revela a incapacidade dos países latino-americanos de sustentar políticas nacionais independentes frente às pressões globais.
O terceiro aspecto é o futuro da integração regional. A resposta dividida dos países latino-americanos à crise venezuelana evidencia a fragilidade dos mecanismos regionais de cooperação. Enquanto alguns países apoiaram a intervenção, outros a condenaram, revelando a ausência de uma estratégia comum. Darcy Ribeiro defendia a ideia de uma “pátria grande”, uma América Latina unida pela história, pela cultura e pela necessidade de enfrentar conjuntamente os desafios da dependência. No entanto, a realidade mostra que os projetos de integração, como a UNASUL ou a CELAC, não conseguiram consolidar uma institucionalidade capaz de responder de forma coesa a crises dessa magnitude. A divisão interna enfraquece a região e reforça sua vulnerabilidade diante das potências externas.
Por fim, o dilema entre multilateralismo e unilateralismo se torna evidente. A ação unilateral dos Estados Unidos contrasta com os esforços de mediação regional e internacional, que buscaram soluções negociadas para a crise venezuelana. Darcy Ribeiro argumentava que a América Latina só poderia se afirmar no cenário internacional por meio de uma postura coletiva e autônoma, capaz de resistir às imposições externas. O unilateralismo norte-americano, ao se sobrepor ao multilateralismo, deslegitima os mecanismos internacionais e regionais de resolução de conflitos, reforçando a lógica de poder que historicamente marginaliza a América Latina. O impacto dessa intervenção é profundo: mina a confiança nos organismos multilaterais, enfraquece os projetos regionais e coloca em dúvida a capacidade da América Latina de construir um futuro baseado na cooperação e na soberania.
Por isso, a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela em 2026, analisada à luz da obra de Darcy Ribeiro, revela a persistência das estruturas de dependência que marcam a América Latina. O questionamento sobre o rumo da política regional, a crise do princípio da não-intervenção, a fragilidade da integração e o dilema entre multilateralismo e unilateralismo são expressões de um mesmo problema: a dificuldade da região em superar sua condição periférica e afirmar-se como sujeito autônomo no sistema internacional. Darcy Ribeiro insistia na necessidade de construir uma “América Latina” consciente de sua história e de seu destino comum, capaz de transformar sua diversidade em força e sua condição de dependência em projeto de emancipação.
A intervenção de 2026 mostra que esse projeto permanece inacabado, mas também reforça a urgência de retomá-lo, sob pena de a região continuar a ser palco de intervenções externas e de divisões internas que comprometem seu futuro. O desafio da América Latina, portanto, é transformar a crise em oportunidade, reafirmando sua soberania, fortalecendo seus mecanismos de integração e defendendo o multilateralismo como caminho para uma paz duradoura e para uma verdadeira emancipação continental.
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