Camila M. F. Guerreiro
O surgimento da campanha Janeiro Branco representa um divisor de águas na forma como a sociedade brasileira encara o sofrimento psíquico. Em um país que lidera os rankings mundiais de ansiedade e depressão, a iniciativa cumpre um papel importante na alfabetização emocional, transformando um tema antes cercado de preconceitos em pauta de conversas nos mais diversos lugares que frequentamos. No entanto, a maturidade do movimento exige que se vá além da conscientização simbólica, enfrentando as críticas que apontam suas limitações estruturais.
Um dos maiores méritos do Janeiro Branco é a sua capacidade de mobilização capilarizada. Ao associar o mês de janeiro à ideia de renovação, a campanha associa-se a um gatilho poderoso para incentivar o indivíduo a revisar seus hábitos de autocuidado. Isso pode favorecer os cuidados com a saúde mental, fundamentais para a promoção do bem-estar e da qualidade de vida, além de contribuir para prevenir o agravamento de condições que, se negligenciadas, poderiam resultar em desfechos negativos.
Por outro lado, vozes críticas no campo da psicologia e psiquiatria alertam para o perigo da psicologização das questões sociais. Ao centrar o discurso no autocuidado e na resiliência individual, a campanha corre o risco de desviar o foco de problemas estruturais que adoecem a população. É contraditório, por exemplo, falar em equilíbrio mental para trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas, baixos salários e insegurança alimentar. Sem uma articulação direta com a defesa de políticas públicas sociais e econômicas, a saúde mental corre o risco de ser reduzida a uma responsabilidade exclusiva do indivíduo, o que pode gerar ainda mais culpa naqueles que não conseguem “ficar bem”.
Além disso, há o desafio da sustentabilidade. A saúde mental não é um evento sazonal, mas um processo contínuo. Muitas vezes, o entusiasmo de janeiro se esvai em fevereiro, deixando as redes de atenção à saúde mental sobrecarregadas e sem o investimento necessário para manter o atendimento ao longo do ano. Para que o Janeiro Branco não se torne apenas um "marketing da mente", é preciso uma corresponsabilização global, onde as instituições convertam os laços brancos em mudanças permanentes na cultura de instituições, em orçamentos públicos robustos aliado ao compromisso do sujeito com sua saúde. Ou seja, cuidar da mente é um compromisso coletivo!
De forma sucinta, o Janeiro Branco é uma ferramenta valiosa de visibilidade e combate ao tabu. Entretanto, para atingir sua plenitude, deve evoluir de uma campanha de reflexão para um movimento de transformação social. Cuidar da mente exige, sim, olhar para dentro, mas também olhar para fora e reformar as estruturas sociais que, por natureza, são geradoras de angústia. Diante disso, cabe a reflexão: o Janeiro Branco nos convoca ao diálogo, mas o que fazemos nos outros meses? Como, em nossos círculos de convivência, temos contribuído para transformar ambientes adoecedores em espaços de acolhimento e saúde?
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