Bárbara Novaes Medeiros
A capacitação contínua é fundamental para diferenciar o profissional de Administração, não no sentido da acumulação de títulos, mas a partir de um propósito social de formação. Mais do que diplomas, é preciso refletir: qual é o impacto e o diferencial social que o administrador deseja oferecer à sociedade? Esse propósito é o que o move o profissional e o distingue no mercado de trabalho. Quando se gosta do que se faz e se busca capacitação constante na própria área e em áreas afins, o resultado tende a ser um profissional diferenciado.
Minha trajetória exemplifica essa perspectiva. Eu poderia ter seguido apenas como professora no curso de Administração, mas escolhi ampliar minha atuação, tornando-me palestrante, ministrando formações em empresas e realizando pesquisas — áreas afins à minha escolha principal. É nesse sentido que o administrador pode ir além, olhando para campos complementares e fazendo escolhas profissionais estratégicas. Na prática, ele pode atuar como administrador e, ao mesmo tempo, como gestor de processos e projetos, com especializações específicas, construindo uma carreira promissora também em termos salariais.
Acredito que sempre haverá espaço no mercado tanto para profissionais generalistas quanto para especialistas. Contudo, é importante destacar que esses espaços são distintos. O curso de Administração oferece uma formação multidisciplinar e desenvolve a capacidade de resolução de desafios estratégicos organizacionais, característica fundamental do perfil generalista. Por outro lado, a área vem sendo cada vez mais valorizada por proporcionar conhecimentos específicos relacionados à proteção do meio ambiente, ao cuidado com as pessoas e à forma como as organizações são administradas em termos de governança, ESG e outras pautas contemporâneas.
Nesse contexto, a grade curricular dos cursos tem avançado ao incluir disciplinas como programação, análise de dados, business labs e marketing digital, entre outras. Observa-se, ainda, um movimento crescente de estudantes de Administração que buscam, paralelamente à graduação, cursos complementares de curta duração, formações técnicas e outros formatos educacionais, com o objetivo de desenvolver competências nas áreas de dados, tecnologia e inteligência artificial.
O desenvolvimento de habilidades deve começar desde o processo de formação. O estágio, a participação em empresas juniores, o trabalho voluntário — para quem dispõe de tempo e não necessita de remuneração imediata —, a iniciação científica e o empreendedorismo são caminhos possíveis. Este último, inclusive, deixou de ser apenas uma ideia para o pós-formação e passou a ser uma possibilidade real durante a realização do próprio curso. Instituições de ensino superior têm criado laboratórios de startups, firmado parcerias com agências de fomento e promovido ações que impulsionam a carreira empreendedora desde a graduação. Trata-se de uma grande oportunidade.
A graduação em Administração se sustenta em três pilares: ensino, pesquisa e extensão. Transformar esses pilares em prática cotidiana ao longo do curso é essencial para que o estudante se destaque em processos seletivos. Isso significa dedicar-se ao estudo formal e informal, aprofundar-se em temáticas atuais por meio da pesquisa, estar atento às políticas nacionais e participar das atividades práticas oferecidas, como visitas técnicas, projetos integrados e ações extensionistas.
Imagine a diferença em uma entrevista de emprego entre afirmar apenas “sou formado em Administração” e dizer “sou formado em Administração e, durante o curso, participei de uma empresa júnior ou de um projeto de extensão”. A conversa ganha profundidade, e o recrutador passa a se interessar pelas experiências vividas.
Nesse cenário, é fundamental compreender que o administrador não se limita às funções clássicas e técnicas de planejar, organizar, dirigir e controlar. Ele é, sobretudo, líder e mediador de pessoas, relações e conflitos. Precisa se envolver com as equipes, motivá-las e acompanhá-las nos projetos. É necessário romper com a imagem do administrador inacessível, isolado em uma sala e com agenda lotada. É preciso reinventar essa figura contemplando aspectos mais humanizados, como o desenvolvimento das competências socioemocionais.
Por fim, ressalto que não bastam teoria e prática: é indispensável olhar para as pessoas e se relacionar com elas. Antes mesmo de ingressar no curso de Administração, tive a oportunidade de ouvir de um gerente uma dica que reforço aos futuros administradores, pois ela impacta diretamente a carreira: “Construam bons relacionamentos profissionais sempre. Eles são fundamentais para que não se sintam desamparados ao longo da trajetória profissional”.
No entanto, relacionamento por si só não é suficiente. É preciso estar preparado, com um currículo consistente, pronto para aproveitar as oportunidades. Circular, participar de visitas técnicas, seminários, projetos acadêmicos e assumir protagonismo são atitudes que permitem ser visto e lembrado. Esse processo acontece de forma orgânica, sem a necessidade de competir com os colegas. Trata-se de estar presente nos espaços onde se deseja atuar.
E lembrem-se: O maior desafio das organizações não está apenas em alcançar a lucratividade, mas em construir e manter boas relações de trabalho. Nesse sentido, o administrador deve assumir uma postura de liderança transformacional, que estimule o melhor das pessoas; democrática, que promova a participação dos trabalhadores nas decisões; e humanizada, ao colocar as pessoas no centro das escolhas organizacionais.
O tom da gestão está mudando, especialmente porque os trabalhadores estão cada vez mais conscientes das legislações trabalhistas, das violências organizacionais e dos excessos da gestão, como a falta de ética, que resultam em adoecimento e mal-estar no trabalho. As pessoas se movem não apenas pelo trabalho, mas pelas pessoas com quem convivem. A neutralidade das organizações diante desse olhar humanizado é, em si, um posicionamento político que certamente tornará a empresa obsoleta.
ATENÇÃO O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor e expressa sua visão sobre assuntos atuais. Os textos podem ser reproduzidos em qualquer tipo de mídia desde que sejam citados os créditos do autor. Edições ou alterações só podem ser feitas com autorização do autor.

