OPINIÃO

Tchella Fernandes Maso é professora visitante no Instituto de Relações Internacionais na Universidade de Brasília e pesquisadora do INCT Caleidoscópio.

Tchella Fernandes Maso

 

Vivemos em uma sociedade que mata mulheres e corpos diversos. Mata fisicamente, mas também de forma sorrateira, ao dificultar ou impedir o acesso à educação, à saúde e a espaços de trabalho qualificados. Na universidade, isso não é diferente. Múltiplas hierarquias dificultam a ascensão das mulheres a espaços de maior visibilidade e remuneração, como a pós-graduação, cargos de chefia e áreas não socialmente associadas ao cuidado.

 

Mesmo com esforços contínuos pela equidade de gênero na ciência, os avanços seguem lentos e profundamente desiguais entre países e áreas do conhecimento. Entre 2012 e 2022, a participação global de mulheres na pesquisa científica passou de 29,4% para apenas 31,1% UNESCO, 2025). Nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM, sigla em inglês), de 5 pessoas empregadas, apenas uma é mulher (UNESCO, 2022).

 

No Brasil, desde 2003 as mulheres são a maioria com doutorado. Ainda assim, permanecem sub-representadas nos espaços de poder acadêmico. Na área de Oceanografia, por exemplo, os homens concentram mais de 74% das bolsas de Produtividade do CNPq (Observatório Caleidoscópio, 2025). Esse descompasso é conhecido como “efeito tesoura”: as mulheres são gradualmente “cortadas” de espaços profissionais de maior remuneração e status.

 

Junto disso, opera a divisão sexual do trabalho. Em uma educação ainda marcada pelo sexismo, meninas são direcionadas para profissões de cuidado, ao passo que a figura do cientista — especialmente nas áreas mais valorizadas e melhor remuneradas — segue sendo masculina. Isso resulta, entre outros fatores que mulheres representem apenas 26% dos doutores em Astronomia e Física, enquanto correspondem a 86% na Enfermagem (GEEMA, 2023a).

 

Tendo em vista a sobrecarga das mulheres que socialmente são responsabilizadas pelo trabalho reprodutivo, a maternidade impõe custos altíssimos à carreira acadêmica. Os períodos mais exigentes — conclusão do doutorado, pós-doutorado e início da docência — coincidem com o momento em que muitas mulheres engravidam ou assumem responsabilidades intensas de cuidado. O resultado é um “vazamento de gênero”: mulheres deixam a ciência por falta de condições institucionais de permanência (Boletim Caleidoscópio, 2025).

 

Mas, quem são as mulheres cientistas? Em sua maioria brancas! As mulheres pretas, pardas e indígenas somam apenas 2,5% da docência nas pós-graduações de STEM (Geema, 2023b) sinalizando a grande assimetria racial presente na ciência brasileira. Por isso qualquer política de promoção da equidade na ciência precisa enfrentar o sexismo e o racismo de forma combinada. a fim de superar desigualdades estruturais e levar em consideração demandas específicas de corpos diversos.

 

Primeiro Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia com recorte feminista e interseccional, o INCT Caleidoscópio articula pesquisa, formação e incidência pública para enfrentar as assimetrias que excluem mulheres e corpos dissidentes da ciência, valorizando trajetórias, saberes e experiências historicamente marginalizadas. Com sede em Brasília, o Instituto atua na promoção da equidade de gênero na ciência por meio de ações como o podcast “Mulheres Quilombolas na Ciência: de quilombola para quilombola” e o primeiro Seminário Nacional de Indígenas Pesquisadoras.

 

O Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, instituído pela ONU em 2015, integra uma mobilização global pela equidade de gênero inscrita na Agenda 2030. Ainda assim, os desafios permanecem urgentes. É fundamental que universidades e agências de fomento adotem políticas permanentes que melhorem as condições de vida e trabalho das pesquisadoras, articuladas a projetos de extensão capazes de alcançar e convidar meninas a ocuparem a ciência.

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