Márcia Renata Mortari
Inaugurada em 1889 como símbolo da engenharia e do progresso científico, a Torre Eiffel traz gravados em sua estrutura os nomes de 72 cientistas e engenheiros, todos homens. Nenhuma mulher foi incluída! Isso apesar de contribuições fundamentais, como as da matemática Sophie Germain, cujos estudos sobre elasticidade foram essenciais para o desenvolvimento teórico de estruturas metálicas, inclusive aquelas que tornaram possível a própria torre. Essa ausência não é um acaso histórico, mas um exemplo do Efeito Matilda, fenômeno que descreve o apagamento sistemático das contribuições científicas de mulheres, frequentemente atribuídas ou reconhecidas apenas por meio de nomes masculinos. Inserir esses nomes, no passado e no presente, não reescreve a história — corrige quem foi autorizado a fazer parte dela.
Mais de um século depois, esse padrão ainda se repete. Globalmente, apenas cerca de uma em cada três pessoas pesquisadoras é mulher, segundo dados da UNESCO. No Brasil, embora as mulheres representem aproximadamente metade dos pesquisadores, elas permanecem sub-representadas nos cargos de liderança científica, no acesso a financiamento e no reconhecimento institucional. Em áreas específicas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), essa desigualdade é ainda mais acentuada. Comemorado anualmente em 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, instituído pela ONU, busca incentivar a participação feminina na ciência e na tecnologia, além de estimular políticas públicas e programas voltados à redução dessas lacunas.
Alcançar espaço e respeito, no entanto, não é tão simples quanto gravar um nome na estrutura de uma torre. A dinâmica de financiamento, avaliação e valorização da ciência ainda precisa ser profundamente modificada para alcançar as mulheres de forma equitativa e oferecer condições reais de redução das desigualdades. Seguimos lidando com o impacto da ausência de políticas eficazes capazes de equilibrar uma balança historicamente desigual, marcada por séculos de preconceito. Nessa equação, o acúmulo de demandas pessoais e profissionais impostas às mulheres continua limitando seu avanço na carreira científica.
Além de mudanças efetivas nos modelos de financiamento e reconhecimento, é preciso coragem para educar e encorajar mulheres a se apropriarem de espaços historicamente masculinos. Reconhecer os avanços conquistados é fundamental, mas ainda precisamos enfrentar temas sensíveis, como a redução do impacto das licenças parentais na progressão da carreira e a desigualdade na distribuição de recursos. Acima de tudo, o maior avanço talvez seja coletivo e interno: convencer-nos de que temos o direito e o poder de ocupar nosso lugar na ciência, sem questionamentos ou culpa. Queremos mais!
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