OPINIÃO

Eduardo Bessa Pereira da Silva é professor da Faculdade UnB de Planaltina. Redige o blog Ciência à Bessa na rede Scienceblogs Brasil e é membro do comitê educacional da Animal Behavior Society.

Eduardo Bessa

 

Dois escândalos têm aparecido na mídia nos últimos tempos com especial atenção à rede de influência de seus protagonistas. No Brasil, o caso de Daniel Vorcaro e seu Banco Master tem se infiltrado na política, justiça e entre o empresariado. Nos Estados Unidos, o caso do bilionário implicado em pedofilia e tráfico sexual Jeffrey Epstein tem mostrado tentáculos entre políticos, artistas e, como vem aparecendo desde a revelação do primeiro conjunto de arquivos do caso, entre cientistas.

 

Foi a presença de pesquisadores proeminentes na carteira de influências de Epstein, e sua ausência na de Vorcaro, que me chamou a atenção. O privilégio duvidoso dos pesquisadores americanos serem alvo do bilionário de lá enquanto os nossos passaram abaixo do radar do bilionário de cá me parece revelar uma diferença sintomática entre as duas sociedades. A visão que cada uma tem da ciência é bastante contrastante.

 

Não era apenas uma questão de filantropia de alívio fiscal. Reportagens como a publicada pela Scientific American indicam que Epstein fazia questão de se envolver em jantares, proporcionar voos fretados, acompanhar resultados de projetos muito específicos e projetar as descobertas de seus apadrinhados em eventos como as TED Talks e publicações de divulgação científica. Isso transcende a relação de mecenas da ciência, que é comum nos EUA. Epstein tinha influência direta sobre a pesquisa desenvolvida em instituições como o MIT e Harvard. Vorcaro não.

 

Aqui, nossa ciência não foi vista como um círculo de influência importante o suficiente, pelo menos por essa amostra de bilionário. A elite brasileira não valoriza nossas pesquisas como algo com potencial transformador. Como descrevi acima, vai além de uma questão da falta de incentivos fiscais para a filantropia acadêmica, é a miopia do instinto de oportunidade mesmo.

 

Que os deuses me livrem de me envolver com figuras como Epstein ou Vorcaro. Quero distância. Mas também quero a ciência nacional valorizada e reconhecida pela nossa sociedade, da base à elite financeira.

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