OPINIÃO

 

Fernanda Vasconcelos de Almeida é professora no Instituto de Química da Universidade de Brasília. Integra o Observatório Brasileiro Interdisciplinar da Cannabis.

 

 

Ana Cristi Basile Dias é professora no Instituto de Química da Universidade de Brasília. Integra o Observatório Brasileiro Interdisciplinar da Cannabis.

Fernanda Vasconcelos e Ana Cristi

 

O tema da cannabis medicinal tem sido amplamente debatido na atualidade, evidenciando seus significativos benefícios terapêuticos. No Brasil, entretanto, o acesso ao tratamento ainda enfrenta diversas limitações, seja pela necessidade de importar medicamentos, seja pela frequente judicialização para garantir o cultivo. Nesse contexto, surgem as Associações de Pacientes, responsáveis pela produção de óleos terapêuticos para seus associados, oferecendo uma alternativa mais acessível em comparação aos produtos importados. Foi diante desse cenário que, há cinco anos, nós — Profa. Fernanda Vasconcelos de Almeida e Profa. Ana Cristi Basile Dias — iniciamos, em conjunto, nossas pesquisas sobre óleos terapêuticos à base de Cannabis sativa no Instituto de Química da UnB.

Começamos de forma tímida, avaliando a qualidade do azeite de oliva amplamente utilizado como diluente nas Associações. Ao longo desse período, desenvolvemos diversas linhas de pesquisa, tais como: caracterização química dos produtos terapêuticos para determinação de canabinoides e terpenos; avaliação de novos métodos de extração e de descarboxilação e estudos de estabilidade. Durante nossa trajetória, reconhecemos a importância da multidisciplinaridade, o que levou à criação de um Centro Integrado de Pesquisas por meio do Decanato de Pesquisa e Inovação, em parceria com a Profa. Andrea Gallassi, da FCTS/UnB. Denominado Observatório da Cannabis, o Centro tem como objetivo facilitar a integração entre os pesquisadores da UnB que estudam Cannabis em suas diversas áreas.

A primeira integralização aconteceu no ano passado com a inserção do ICB, com os docentes Renato Malcher, Fabian Borghetti e Gabriel Alves, que passaram a atuar nas áreas de neurociências, botânica e microbiologia. O primeiro projeto do Observatório encontra-se na fase final de idealização e, em breve, será implementado, consistindo na elaboração de um formulário extenso sobre toda a cadeia produtiva de óleos medicinais dispensados pelas Associações. O principal objetivo é que as Associações participem, enviando as informações acompanhadas de amostras de seus produtos, para que realizemos análises de caracterização química (teor de canabinoides, terpenos e, futuramente, metais, agrotóxicos e contaminantes microbiológicos). Com as respostas do formulário e os resultados das análises químicas, iniciaremos a criação de um banco de dados sobre a produção de medicamentos de cannabis medicinal no Brasil, com informações como tipo de cultivo, origem e genótipo das sementes, métodos de extração, entre outros, que serão armazenados para posteriormente gerar relatórios detalhados sobre a produção de cannabis no país.

A pesquisa com Cannabis sativa nas universidades brasileiras ainda é muito limitada e depende de autorizações específicas, além de enfrentar numerosos desafios burocráticos. Alguns grupos de pesquisa já obtiveram essas autorizações, enquanto outros ainda são submetidos a diversas exigências, muitas vezes difíceis de serem cumpridas. A nova resolução da Anvisa (nº 1.012, de 30/01/2026), que entrará em vigor em 06 de agosto de 2026, representa um avanço ao conceder autorizações especiais (AE) para a instituição de pesquisa como um todo, e não mais para cada projeto individualmente. Essa nova resolução contempla todo o ciclo de pesquisa, desde o cultivo até o desenvolvimento de extratos e a caracterização analítica. Uma vez que a instituição possua a AE, qualquer pesquisador poderá trabalhar com o tema, o que permitirá a expansão das linhas de pesquisa.

Com relação à formação na UnB, temos atualmente sete alunos de pós-graduação e quatro de graduação envolvidos nesse tema. Além disso, temos organizado um simpósio de divulgação científica sobre cannabis, o Cann&Quim, com apoio do Conselho Federal de Química e dos Conselhos Regionais de Química das localidades onde o evento é sediado. O Cann&Quim já teve duas edições, uma em Brasília e outra em Teresina, e estamos trabalhando na organização de mais três edições neste ano, em Curitiba, Recife e São Luís. Nosso objetivo tem sido divulgar amplamente os benefícios dessa planta e desmistificála por meio do conhecimento científico.

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