OPINIÃO

Rozana Reigota Naves é reitora da Universidade de Brasília e professora do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP). Doutora em Linguística pela UnB.

Rozana Reigota Naves

 

Este 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, exige uma reflexão coletiva. Ao longo de mais de um século, a data se consolidou como um marco mundial de luta por direitos, igualdade e dignidade. Ainda assim, mais do que celebrar conquistas, é preciso olhar com seriedade para os desafios que ainda persistem, entre os quais a violência contra as mulheres. Nesse contexto, as instituições têm papel fundamental na construção de ambientes seguros, livres de assédio e promotores da equidade de gênero.

 

A Universidade de Brasília existe para formar pessoas, produzir conhecimento e servir à sociedade. E servir à sociedade, neste momento histórico, implica afirmar com clareza: a violência contra a mulher é uma violação de direitos e configura uma falha institucional quando não é prevenida, acolhida e enfrentada com rigor.

 

Proteger as mulheres é um compromisso de todos e não admite ambiguidades. Compromisso, aqui, é responsabilidade assumida, traduzida em políticas, práticas, recursos, protocolos, formação e resultados. É a capacidade de assegurarmos que mulheres possam estudar, trabalhar, circular e existir com dignidade, sem medo e sem coerção e que, diante de qualquer violência, encontrem acolhimento qualificado, orientação, proteção e resposta institucional efetiva.

 

É importante reconhecer que a violência contra a mulher não se resume à ação de agressores. Ela também se alimenta de mecanismos sociais e institucionais de tolerância e silenciamento. Quando o assédio é relativizado, quando denúncias são recebidas com descrédito até transformar o direito em desgaste, cria-se um ambiente de permissividade. E a permissividade, nesse campo, tem consequências graves.

 

Falar em proteção exige tratar de duas dimensões inseparáveis: prevenção e resposta. A UnB, situada no centro político do país, tem uma responsabilidade ainda mais sensível nesse debate. Por isso, a universidade precisa ser exemplar no sentido mais responsável da palavra: não porque esteja imune a problemas, nenhuma instituição está, mas porque tem o dever de enfrentá-los com transparência, método e responsabilidade.

 

A contribuição de uma universidade pública para o enfrentamento da violência contra as mulheres combina a produção de conhecimento, a formação de profissionais tecnicamente preparados e eticamente comprometidos e o trabalho em rede com a sociedade. Na Universidade de Brasília, esse compromisso tem se traduzido em ações concretas.

 

Ao longo de 2025, reafirmamos institucionalmente o princípio de tolerância zero para assédios e violências de gênero. A universidade também fortaleceu iniciativas de orientação à comunidade acadêmica, com produção de materiais educativos que ajudam a reconhecer situações de violência e indicar caminhos de apoio. Avançamos no fortalecimento dos mecanismos institucionais para responder às denúncias, com capacitação de equipes, aprimoramento de fluxos administrativos e revisão de normas internas. Nenhuma medida isolada resolve um problema estrutural como a violência de gênero. Mas ações contínuas e consistentes produzem efeitos concretos: reduzem silêncios, favorecem redes de proteção e qualificam respostas institucionais.

 

O 8 de março nos lembra que a luta por igualdade e segurança para as mulheres não é episódica nem simbólica. É permanente. E exige o compromisso ativo de instituições e da sociedade. A violência contra a mulher é um problema público. Proteger as mulheres é um dever institucional e um compromisso democrático. Não é concessão: é direito.

 

Neste ano, a UnB reafirma esse compromisso por meio da campanha #8M 2026 – Nenhuma a menos: mais vozes, mais acolhimento. A iniciativa busca ampliar debates, dar visibilidade às pautas das mulheres e fortalecer o compromisso institucional com a igualdade de gênero e com o feminicídio zero. Afinal, a violência contra as mulheres costuma seguir um percurso bem conhecido: começa com desrespeito, intimidação ou assédio, avança para formas mais graves de violência e, quando não é interrompida, pode chegar ao feminicídio. Por isso, prevenir, acolher e agir são tarefas inseparáveis.

 

A mobilização da Universidade de Brasília se conecta às ações do governo federal e ao Pacto Nacional firmado pelos três Poderes da República para prevenir e enfrentar a violência contra as mulheres. Ao somar vozes, fortalecer redes de acolhimento e afirmar que nenhuma mulher pode ficar para trás, reforçamos que proteger mulheres é uma responsabilidade pública e um compromisso permanente da democracia brasileira.

 

 Artigo publicado no Correio Braziliense em 8/3/2026.

 

*Durante o mês de março, priorizaremos artigos produzidos por mulheres.

 

 

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