OPINIÃO

Anna Beatriz de Carvalho Leite é mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília, na linha de pesquisa Educação em e para direitos humanos, com ênfase em questões nos estudos sobre gênero e sexualidade, sobretudo masculinidades. Advogada da área criminal como foco no combate à violência de gênero.

 

Anna Beatriz de Carvalho Leite

 

Existe algum lugar onde a crueldade dos homens não encontrará as mulheres?

 

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública trazem notícias do ano de 2025. Foram 1.568 vítimas de feminicídio no ano passado, demonstrando crescimento de 4,7% em relação a 2024. 59,4% dessas mulheres foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% mortas por algum ex-parceiro. As histórias dessas mulheres não podem ser traduzidas em estatísticas, mas os números crescem e esquecem-se os nomes.

 

Ao final de janeiro de 2026, no Rio de Janeiro, uma jovem foi vítima de estupro coletivo após ser atraída para uma emboscada organizada por um ex-namorado, que a violou com outros 4 homens, um deles menor de idade, com 17 anos, que, segundo os noticiários, premeditou o ato utilizando-se da relação romântica que um dia possuíram para manipulá-la.

 

Casos de violência sexual frequentemente são interpretados como atos de brutalidade individual. Há tentativa de patologizar os agressores e narrativas que visam turvar o não consentimento da vítima. No entanto, a mera análise da dimensão criminal ou psicológica impede compreender um aspecto macro desses acontecimentos. A violência contra meninas e mulheres é produzida e reproduzida dentro de uma estrutura histórica de poder.

 

O patriarcado caminha junto com outros pilares, como raça e classe, e estabelece hierarquias de gênero que associam masculinidade ao domínio e feminilidade à submissão. A crueldade dirigida ao corpo feminino funciona como mecanismo de controle social, mas também como rito de passagem, onde meninos se tornam homens pela violência e passam a ser respeitados por seus pares.

 

O corpo das mulheres é desumanizado, torna-se território de disputa e afirmação de status. Meninos são socializados para demonstrar força e invulnerabilidade emocional, enquanto meninas aprendem a negociar sua segurança dentro de um mundo que constantemente ameaça sua autonomia.

 

A violência sexual que surge nas dinâmicas de gênero é uma linguagem de poder, de modo que quando uma mulher rompe expectativas pode ser percebida como alguém que “desafiou” uma hierarquia informal. A masculinidade – em sua pluralidade, mas também em seu objetivo comum de subjugar corpos não masculinos – visa restaurar essa ficta ordem.

 

Essa dinâmica aparece desde cedo em homens ainda menores de idade ou recém-chegados à vida adulta. A adolescência é um período em que a identidade é construída também pela validação, e muitos meninos aprendem que a masculinidade precisa ser provada diante de outros homens. A violência deixa de ser uma ação individual e passa a funcionar como ritual de pertencimento, criando narrativas que relativizam ou justificam o abuso, como a pergunta “por que ela estava naquele lugar, naquele horário, vestindo tal roupa?”, como se qualquer resposta justificasse o injustificável.

 

Não se pode olvidar que o patriarcado também se mantém através de uma cultura que frequentemente minimiza a violência contra mulheres. O divórcio somente foi legalizado no Brasil em 1977, a Lei Maria da Penha é de 2006, a Lei do Feminicídio é de 2015, de modo que a questão da mulher enquanto sujeito no discurso legal ainda é recente. No discurso popular ainda se vê culpabilização das vítimas, piadas que sexualizam a humilhação feminina e representações culturais que romantizam o controle e o ciúme. Homens raramente são ensinados a refletir criticamente sobre os privilégios e pressões associados à masculinidade.

 

Conclui-se que enfrentar a violência contra meninas e mulheres torna necessário questionar as estruturas culturais que sustentam a associação entre masculinidade e poder. Enquanto o patriarcado continuar a definir o valor social dos homens pela capacidade de dominar e o das mulheres pela capacidade de suportar, a crueldade, característica comum desses seres, permanecerá como elemento estruturante das relações de gênero.

 

 

*Durante o mês de março, priorizaremos artigos produzidos por mulheres.

 

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