OPINIÃO

Marcella Lemos Brettas Carneiro é professora e pesquisadora na Faculdade de Planaltina da Universidade de Brasília (FUP/UnB). Atua nas áreas de nanotecnologia aplicada à saúde e desenvolvimento de biomateriais. Integra projetos de inovação voltados à proteção e ao cuidado em saúde. *Foto registrada no dia que recebeu o 1º lugar do Prêmio de Inovação para o SUS.

Marcella Lemos Brettas Carneiro

 

Durante a pandemia, quando o medo e a incerteza se espalhavam com a mesma rapidez que o vírus, uma pergunta mobilizou cientistas em diversos laboratórios: como a ciência poderia ampliar a proteção das pessoas em um momento de tanta vulnerabilidade?

 

Naquele cenário de urgência e escassez de equipamentos de proteção individual, pesquisadores, estudantes e profissionais da saúde decidiram agir — com conhecimento, responsabilidade e compromisso com a vida.

 

Foi nesse contexto que surgiu o projeto da Máscara Vesta, desenvolvido na Universidade de Brasília em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande e o setor produtivo. No início da pandemia, o Brasil enfrentava forte dependência de insumos importados para a produção de EPIs, como máscaras semifaciais, o que agravava a vulnerabilidade dos profissionais de saúde.

 

Além da escassez, havia um desafio técnico importante. Respiradores do tipo N95/PFF2 atuam como barreiras físicas na retenção de partículas virais. No entanto, vírus podem permanecer ativos por muitas horas na superfície do material após o uso, tornando o momento da retirada do equipamento um risco adicional de contaminação.

 

Diante desse problema, buscamos desenvolver uma solução que fosse além de suprir a falta de EPIs. Desenvolvemos uma máscara com um nanofilme antiviral à base de quitosana — um biopolímero natural com reconhecida ação antimicrobiana — capaz de conferir ao material filtrante uma camada adicional de proteção físico-química. Assim, além de reter partículas virais, a máscara reduz sua atividade biológica na superfície do filtro, aumentando a segurança dos profissionais de saúde que atuavam diretamente no atendimento a pacientes contaminados.

 

Transformar essa ideia em uma tecnologia real exigiu um longo percurso científico. Como pesquisadora envolvida desde os primeiros momentos da investigação, acompanhei de perto os desafios dessa jornada. Um dos maiores deles é transformar descobertas feitas na bancada do laboratório em soluções concretas para a sociedade.

 

Entre uma ideia científica e sua aplicação existe um longo caminho. A máscara Vesta é resultado de um processo de pesquisa translacional que percorreu todas as etapas da inovação — da prototipagem e dos testes experimentais aos ensaios regulatórios necessários para garantir sua segurança e eficácia. Ao longo desse percurso, a tecnologia gerou um pedido de patente e foi posteriormente licenciada para a empresa Life Care. Esse processo de transferência tecnológica permitiu que a solução desenvolvida no laboratório avançasse para a produção em escala, viabilizando sua fabricação em ambiente fabril e sua disponibilização à sociedade desde 2022.

 

Esse percurso também foi marcado por uma liderança científica inspiradora. A professora Suélia Fleury Rosa, coordenadora do projeto, teve papel fundamental ao reunir diferentes competências e instituições em torno de um objetivo comum. Todo esse avanço científico ocorreu em um contexto particularmente desafiador. Durante a pandemia, trabalhamos em condições extremas. Enquanto os laboratórios se esvaziavam e o distanciamento se tornava regra, a pesquisa precisou reinventar suas rotinas. Lembro-me de orientar alunos por chamadas de vídeo, acompanhando experimentos à distância e ajustando protocolos para que a ciência não parasse.

 

Foi nesse contexto que se revelou algo essencial: a ciência é profundamente humana. Quando pessoas escolhem cooperar mesmo diante das dificuldades, tornam possível transformar conhecimento em soluções concretas. A Máscara Vesta é um exemplo desse esforço coletivo, resultado de uma ampla rede de colaboração que reuniu universidade, setor produtivo e sociedade. Também contou com financiamento público, parcerias institucionais e até contribuições da sociedade civil. Essa convergência de esforços demonstra como cooperação e propósito compartilhado podem transformar conhecimento científico em impacto social.

 

Em um campo historicamente marcado por desigualdades de gênero, iniciativas como essa também evidenciam o papel crescente das mulheres na liderança de projetos científicos no Brasil. Pesquisadoras têm contribuído de forma decisiva para ampliar o impacto social da ciência produzida nas universidades públicas. O impacto dessa iniciativa também se refletiu no reconhecimento público e institucional do projeto. Em 2025, a Máscara Vesta conquistou o primeiro lugar no Prêmio de Ciência, Tecnologia e Inovação para o SUS. E em fevereiro de 2026, pesquisadores do projeto foram homenageados em uma Sessão Solene na Câmara Legislativa do Distrito Federal.

 

A história da Máscara Vesta mostra que, quando conhecimento, cooperação e compromisso com a sociedade caminham juntos, a ciência cumpre exatamente aquilo que motivou aquela pergunta no início da pandemia: proteger vidas. Assim, uma ideia que começou em experimentos silenciosos de laboratório transformou-se em um gesto concreto de cuidado coletivo. Como o fogo simbólico que inspira seu nome, a Vesta representa a ciência que protege, acolhe e mantém viva a chama da vida.

 

 

*Durante o mês de março, priorizaremos artigos produzidos por mulheres.

 

 

 

 

 

 

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