Helena Araújo Costa e Nathália Hallack Fabrino
O Turismo é um setor majoritariamente feminino em sua mão de obra. E, quando analisamos sua essência, percebemos que estar no Turismo requer observação atenta para acolher, receber e partilhar momentos com muita sensibilidade - o que não é um atributo exclusivo das mulheres, mas é muito presente em nós. Apesar disso, as lideranças seguem concentradas nas mãos de homens quando se tratam de cargos de decisão política. Ainda em 2026, é inquietante ver apenas homens (a saber o ministro, o presidente da Embratur e os diretores), para mencionar apenas a esfera federal.
Em contrapartida, olhamos para fora e vemos mulheres dedicadas a transformar este setor para que seja, genuinamente, cada vez mais uma rede de acolhimento, transformação positiva e responsabilidade com populações, territórios e biomas. Desafios temos inúmeros: um setor muito informal, trabalhos precarizados, sazonalidades e impactos socioambientais negativos que precisam ser manejados com cautela. As mulheres sentem, tantas vezes, que suas lutas são individuais quando são sistêmicas. E quando garantimos espaços verdadeiros de trocas, potencializamos o que cada uma delas está fazendo para transformar o mundo ao seu redor. Neste propósito, foi criado o Movimente como uma plataforma permanente de articulação entre governo, setor produtivo, terceiro setor e sociedade civil, idealizada pelo SEBRAE/DF com realização dos SEBRAE Centro-Oeste e Nacional. Nascido no DF em 2023, cresceu com a força das mulheres empreendedoras de Brasília, e hoje se consolida com propósito claro e ousado: posicionar o Brasil entre os melhores lugares do mundo para uma mulher empreender. O que dá base para essa rede é o entendimento do empreendedorismo como uma potente alternativa para a independência econômica das mulheres, uma ferramenta de transformação social e de liberdade, sobretudo para aquelas que ainda são vítimas de desigualdade e, muitas vezes, de abusos.
O Turismo não poderia estar de fora deste chamado. Karine Wakanda (Wakanda) veio de Salvador e Regina Tchely (Favela Orgânica) veio do Rio de Janeiro, ambas de comunidades extremamente vulneráveis socialmente, para mostrar que a inovação pode mudar a vida de tantas pessoas. Assentando o olhar no DF, perante uma plateia de 100 pessoas, quatro empreendedoras mostraram o que estão promovendo na economia criativa, na cultura, no turismo emissivo e receptivo da nossa cidade.
Cada trajetória foi marcada por momentos de perdas, lutos e coragem de atravessar. Chama atenção também o quanto cada uma foi conduzida por um sonho, um desejo genuíno de, como disse Karine Wakanda “não aceitar que certas coisas ainda não existam no mundo”. Assim, ela não aceitou que não pudesse ensinar empreendedorismo para todas as pessoas que precisavam daquele saber. Regina não aceitou que os alimentos não fossem aproveitados em todo o seu potencial e que sua comunidade fosse apartada de melhores condições de vida, encontros e autovalorização. Valéria Farias não aceitou que gerir um hotel era seguir fazendo o mesmo, pois queria ver no mundo um hotel Lixo Zero. Michelle Cano não aceitou que a cultura e os eventos fossem apenas para entretenimento, assim criou um modo de torná-los ferramenta de inclusão e transformação criativa. Bianca D’aya não aceitou que a cultura Afrobrasileira fosse marginalizada, então criou um roteiro que valoriza nossas raízes. Thaís Quintão não aceitou que as mulheres passem por mudanças tão profundas de modo solitário, e assim criou uma agência que instrumentaliza a viagem transformadora e cheia de intenção.
Alegria imensa a Universidade de Brasília ter sido citada como um espaço de fortalecimento e, até mesmo, um ponto de inflexão, na vida profissional de cada uma. Sobretudo, nas trajetórias pessoais destas autoras: além de colegas de formação na pós-graduação acadêmica na UnB há quase 20 anos, nos tornamos referências uma para a outra do que queremos ver no mundo: mais afeto, mais amizades duradouras, mais suporte para que os voos de todas as mulheres sejam cada vez mais altos.
Ao final, as mulheres empreendedoras do painel ressaltaram mensagens que queremos aqui reforçar: estudem, criem mundos, façam pontes e construam vínculos, colaborem com outras iniciativas, caminhem juntas, sejam espelhos para outras mulheres, testem soluções que possam melhorar a vida da nossa comunidade.
*Durante o mês de março, priorizaremos artigos produzidos por mulheres.
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