OPINIÃO

Maria Hosana Conceição é professora da Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde (FCTS) no campus de Ceilândia. Professora do Programa de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação-PPG PROFNIT/ UnB.  

 

 

 

Maria Hosana Conceição

 

Março é mês de celebrar as mulheres e também de revisitar trajetórias. A minha começa antes mesmo da universidade, quando, ainda estudante, descobri que ensinar era parte essencial do que eu queria ser. Gostava de explicar matemática aos colegas e, no ensino médio, a Química deixou de ser apenas disciplina para se tornar vocação. As notas máximas vinham acompanhadas de um incentivo marcante: ganhar de presente o livro de Química de Ricardo Feltre, gesto que consolidou minha escolha profissional.

 

Em 1983, ingressei no curso de Química da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Araraquara. A formatura veio em 1986. No ano seguinte, a mudança para Brasília marcou o início do mestrado no Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ/UnB). A pesquisa, inicialmente na área de pesticidas, foi redirecionada para a Síntese Orgânica, sob orientação do professor Peter Bakuzis. O desafio de propor uma rota sintética para um precursor de esteroide exigiu rigor técnico, persistência e criatividade, qualidades indispensáveis a quem escolhe a ciência como caminho.

 

Conciliar estudo, maternidade e responsabilidades familiares tornou-se parte inseparável dessa formação. Fazer pesquisa em Química é lidar com incertezas: experimentos que precisam ser refeitos, equipamentos que falham, resultados que demoram a aparecer. Para muitas mulheres, soma-se a isso a administração de múltiplas jornadas. Ainda assim, é nesse contexto que se fortalecem competências como organização, disciplina e capacidade de inovação.

 

A carreira docente começou na Universidade Católica de Brasília (UCB), onde permaneci por duas décadas. Nesse período, veio o doutorado em Resíduos de Pesticidas, sob orientação da professora Eloisa Dutra Caldas, referência nacional na área de toxicologia e análise de contaminantes. A convivência acadêmica com outras mulheres cientistas reforçou algo fundamental: a ciência também se constrói em redes de apoio, colaboração e confiança.

 

Entre 2005 e 2006, realizei estágio pós-doutoral no Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC), em Barcelona/España, com bolsa da CAPES, como docente da UCB. Tive a oportunidade de desenvolver pesquisas com a equipe do Dr. Damià Barceló e da Dra. Miren de Alda, referências internacionais na área de contaminantes ambientais. Essa experiência ampliou minha formação científica e fortaleceu competências que mais tarde contribuiriam, diretamente, para a atuação na UnB, especialmente na formação de pesquisadores e na consolidação de atividades no Mestrado Profissional ProfNIT.

 

Em 2009, ingressei na UnB, no campus de Ceilândia, por meio de concurso público. Desde então, atuo na formação de estudantes da área da saúde, ensinando Química Geral aplicada a futuros farmacêuticos, enfermeiros e fisioterapeutas. A experiência ampliou meu entendimento sobre o papel social da Química. Ao longo dos anos, orientei pesquisas aplicadas, como o desenvolvimento de metodologia para quantificação de aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA), integrando Química Analítica e Bioquímica às demandas concretas da formação profissional.

 

Em 9 de junho de 2025, defendi meu memorial acadêmico e fui promovida a professora titular da UnB, conforme a Resolução Consolidada nº 179/2017. O momento representou a síntese de anos dedicados ao ensino, à pesquisa e à orientação. Mais que reconhecimento individual, foi a confirmação de que a presença feminina na Química universitária é ativa, qualificada e transformadora.

 

Na UnB, muitas mulheres atuam em diferentes frentes da Química; da Síntese Orgânica à Química Analítica, dos Produtos Naturais à Nanociência. Cada laboratório coordenado por uma professora, cada projeto desenvolvido, cada estudante orientado amplia a participação feminina na produção científica brasileira.

 

Nos últimos anos, outro movimento passou a integrar essa trajetória: a incorporação das tecnologias digitais e, mais recentemente, da Inteligência Artificial (IA). A pandemia da Covid-19 acelerou processos e exigiu reinvenção pedagógica. Plataformas digitais tornaram-se ferramentas cotidianas nas aulas de Química. A adaptação foi rápida, mas exigiu atualização constante e disposição para aprender; algo intrínseco à formação científica.

 

Hoje, ferramentas de IA apoiam atividades de ensino e pesquisa, inclusive no ProfNIT. Utilizadas com responsabilidade e senso crítico, não substituem o pensamento científico, mas o potencializam. Auxiliam na organização de dados, na análise de informações e no planejamento didático. São, de certa forma, uma extensão contemporânea do laboratório.

 

Ser mulher na Química, na Universidade de Brasília, é transitar entre a bancada, a sala de aula e as plataformas digitais. É produzir ciência, orientar estudantes, liderar projetos e formar novas gerações. No mês de março, celebrar as mulheres na ciência é reconhecer que suas trajetórias ajudam a construir uma universidade mais diversa, inovadora e preparada para os desafios do presente.

 

Do laboratório à Inteligência Artificial, a presença feminina na Química da UnB reafirma que a ciência também tem autoria, liderança e compromisso social.

 

 

*Durante o mês de março, priorizaremos artigos produzidos por mulheres.

 

 

ATENÇÃO O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor e expressa sua visão sobre assuntos atuais. Os textos podem ser reproduzidos em qualquer tipo de mídia desde que sejam citados os créditos do autor. Edições ou alterações só podem ser feitas com autorização do autor.