OPINIÃO

Maria Fernanda Nince Ferreira é vice-diretora do Centro de Estudos UnB Cerrado. Professora no Instituto de Biologia da Universidade de Brasília. Integra a Rede de Polos de Extensão da UnB (Repe), atuando diretamente na interface entre ciência, comunidades tradicionais, produtores rurais e conservação socioambiental.

Maria Fernanda Nince Ferreira

 

Falar sobre mudanças climáticas sem falar sobre mulheres é ignorar parte essencial da solução. A crise climática não é neutra: ela aprofunda desigualdades, atinge de maneira distinta populações vulneráveis e exige respostas que ultrapassem a lógica exclusivamente técnica. E é exatamente nesse ponto que a liderança feminina se mostra estratégica.

 

As mulheres historicamente ocupam espaços de cuidado — com a água, com o alimento, com a família, com o território. Durante muito tempo, essa atuação foi invisibilizada ou restrita ao âmbito privado. No entanto, diante dos desafios ambientais contemporâneos, tornou-se evidente que as competências desenvolvidas nesses espaços são fundamentais para a construção de políticas públicas mais integradas, sensíveis e eficazes.

 

A presença feminina em cargos de liderança ambiental não é apenas uma questão de representatividade. É uma questão de qualidade da decisão. Experiências nacionais e internacionais demonstram que ambientes institucionais com maior participação de mulheres tendem a incorporar diálogo, cooperação e visão de longo prazo — elementos indispensáveis quando falamos de clima e sustentabilidade.

 

Falo também a partir da experiência. Ao assumir a coordenação do Núcleo de Extensão do Centro UnB Cerrado (CER) e do Polo UnB Chapada dos Veaderios, entre os anos de 2021 e 2024, vivenciei de perto a complexidade das ações que envolvem meio ambiente, produção, território e inclusão social. Ali compreendi que decisões técnicas só se tornam efetivas quando dialogam com realidades locais e consideram impactos socioambientais amplos. Liderar nesse contexto exigiu firmeza, escuta e capacidade de articulação — competências frequentemente associadas à trajetória das mulheres na vida pública.

 

Hoje, à frente do UnB Cerrado, essa percepção se reafirma diariamente. O Cerrado é um bioma estratégico para o equilíbrio climático do país, berço de nascentes e de uma biodiversidade extraordinária. Mas é também território de comunidades tradicionais, agricultoras, extrativistas e educadoras que sustentam práticas de convivência com o ambiente muito antes de a pauta climática ganhar destaque internacional. Em muitas dessas comunidades, são as mulheres que organizam cadeias produtivas, promovem agroecologia, articulam redes de cooperação e mantêm vivos saberes sobre o uso sustentável dos recursos naturais.

 

Apesar disso, as mulheres ainda enfrentam barreiras estruturais para ocupar espaços formais de poder. A sobrecarga de responsabilidades, a desigualdade de oportunidades e a resistência cultural persistem, inclusive no ambiente acadêmico. Liderar sendo mulher significa, muitas vezes, administrar expectativas, romper estereótipos e reafirmar continuamente a própria legitimidade.

 

A universidade pública tem papel decisivo nesse cenário. É nela que formamos pesquisadoras, gestoras e professoras que atuarão na linha de frente das transformações ambientais. Defender a presença das mulheres na ciência e na gestão climática não é aderir a um discurso identitário vazio. É reconhecer que a diversidade amplia horizontes, melhora decisões e fortalece a democracia.

 

A crise climática é, antes de tudo, um desafio civilizatório. Exige mudança de mentalidade, revisão de modelos produtivos e compromisso ético com as próximas gerações. Nesse processo, a liderança das mulheres não deve ser vista como exceção ou concessão, mas como componente essencial de uma governança ambiental mais justa e mais eficaz.

 

Fortalecer mulheres em espaços de decisão é fortalecer a própria capacidade da sociedade de enfrentar o futuro.

 

 

*Durante o mês de março, priorizaremos artigos produzidos por mulheres.

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