OPINIÃO

Ângela Uchôa Branco é professora emérita da Universidade de Brasília. É orientadora no Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento Humano e Escolar (PPGPDE/UnB) e no Labmis-UnB.

Ângela Uchôa Branco

 

Sabemos que a escola reflete a estrutura e a dinâmica da sociedade, ou, em outras palavras, a cultura em que vivemos. E a cultura dominante, que prevalece na estrutura desigual e nas relações entre as pessoas na sociedade, é de natureza violenta. Predominam as vozes e os interesses dos mais fortes, mais poderosos e espertos, capazes de impor seus desejos pela truculência ou pelo autoritarismo. No ambiente escolar, valores como competição e individualismo são cultuados através de falas e ações de mestres e alunos, e o que se destaca, nas interações entre estes últimos é a busca por popularidade e liderança. Reflexo do que ocorre, por exemplo, tanto no nível institucional quanto no sociopolítico. Combatendo os mais vulneráveis, os percebidos (ou percebidas) como mais fracos, agressores e apoiadores promovem sua suposta “superioridade” e popularidade ao se engajar em ações de humilhação, desprezo e violência física sistemática contra aqueles eleitos como vítimas ideais.

 

Semelhanças com o que ocorre em diversos outros contextos sociais não são mera coincidência, mas sim a límpida demonstração de que a cultura do individualismo e da violência atravessa todos os cenários sociais. Mas se existe um contexto privilegiado para promover uma transformação cultural significativa no sentido da valorização da paz, da ética, da empatia e da cooperação entre os seres humanos, esse contexto pode ser exatamente a escola. Da educação infantil à universidade, as instituições educativas podem e devem trabalhar nessa direção. Por exemplo, interromper uma aula para conversar com os alunos sobre o que está ocorrendo em uma situação de conflito não é, absolutamente, uma perda de tempo. É permitir que temas como justiça, respeito, solidariedade e empatia sejam abordados e discutidos como parte essencial de um currículo que não inclua apenas conhecimentos acadêmicos, mas também aprendizagem para viver em sociedade, para desenvolver uma pró-socialidade que pode favorecer um mundo menos hostil e estressante, e, portanto, melhor de se viver.

 

Será isso utopia? Bem, a utopia importa para nos apontar a direção, mas cabe a nós, todos — família, professores, gestores e governantes — promover a transformação cultural, sem a qual a violência se perpetua e agrava a cada dia nos ambientes escolares. No âmbito das salas de aula, professores precisam assumir a posição de educadores e adotar práticas pedagógicas de caráter cooperativo e dialógico, cujos efeitos positivos para o desenvolvimento cognitivo e socioafetivo têm sido amplamente comprovados cientificamente. Mas as tradicionais tarefas individuais e competitivas ainda prevalecem. A pergunta que se coloca é: até quando? Até quando as escolas resistem a inovar suas práticas, introduzindo espaços de diálogo e escuta para abordar temas como a importância da justiça, da ética, do respeito, da empatia e da democracia como forma de convivência social e política?

 

Aproveito este espaço para convidar pais e educadores para o relevante e urgente trabalho de conversar, de maneira acolhedora e dialógica, com crianças e adolescentes sobre este assunto. Sem uma mobilização real nessa direção, continuaremos a testemunhar agressões e violências extremas em um ambiente que deveria ser caracterizado pela coconstrução de conhecimentos, pela coconstrução da democracia e, por que não dizer, pela coconstrução de um mundo mais feliz.

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