Wladimir Gramacho, Fábio Henrique Pereira e Luana Gabriella Azevedo de Lima
A formação universitária não termina na colação de grau. Ela se prolonga — e se revela — nas trajetórias profissionais dos egressos. Acabamos de publicar na revista Media Practice and Education um estudo que analisou cinco décadas das carreiras dos egressos diplomados (1971–2020) em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB). Os resultados sugerem que acompanhar graduados deve ser uma prioridade institucional para a UnB, pois permite avaliar a pertinência do ensino oferecido.
Os dados são claros. A maioria dos formados inicia a carreira no jornalismo: 58% tiveram seu primeiro emprego em redações. Mas esse vínculo não se sustenta ao longo do tempo. Entre os profissionais ainda ativos, apenas 14% permanecem em empresas jornalísticas. A maior parte migra para outras áreas da comunicação (49%), como assessorias e comunicação corporativa, ou abandona o campo (37%). Extrapolando os dados observados, e considerando a série histórica do curso — que forma, em média, cerca de 21 estudantes por semestre —, isso significa que apenas cerca de três egressos por turma permanecem em redações ao longo da carreira. Trata-se de uma característica estrutural da profissão (e não um retrato episódico), pois esse padrão é observado em diferentes gerações e extratos etários.
O acompanhamento sistemático desses trajetos permite à universidade enxergar o que os currículos muitas vezes não captam. Embora 85% dos egressos avaliem positivamente o curso e 77% reconheçam sua contribuição para a prática jornalística, apenas 37% consideram que a formação os preparou bem para atuar em assessoria de comunicação. Entre os mais jovens, essa percepção é ainda mais crítica: só 24% veem o curso como adequado para esse setor, justamente aquele que mais absorve profissionais. O descompasso é evidente — e só aparece porque há dados sobre egressos.
Outro achado relevante diz respeito à estabilidade e à renda. O tempo médio dedicado ao jornalismo ao longo da carreira é de cerca de um terço da trajetória profissional, enquanto a comunicação ocupa fatia maior. Ainda assim, permanecer no jornalismo pode trazer ganhos salariais mais elevados nas fases avançadas da carreira.
Há também um dado institucional importante. A estabilidade no primeiro emprego em jornalismo não caiu entre gerações, contrariando a expectativa de deterioração contínua. A mudança mais forte ocorreu nas áreas de comunicação, onde os vínculos se tornaram mais curtos entre os mais jovens. Isso indica que a transformação do mercado não é homogênea — e reforça a necessidade de evidências contínuas para orientar decisões pedagógicas.
É nesse ponto que o seguimento de egressos deixa de ser um exercício burocrático e se torna ferramenta estratégica. Sem ele, a universidade forma para um mercado que já não existe; com ele, pode ajustar conteúdos, habilidades e expectativas. No caso do jornalismo, isso significa ampliar a formação para além da redação, aumentando a oferta destinada a competências digitais, empreendedoras e de comunicação organizacional — sem abrir mão do núcleo crítico da profissão.
A produção episódica de dados como esses oferece certamente insumos à reflexão e melhoria dos currículos. Mas o desafio é institucionalizar esse monitoramento, transformando-o em política permanente. A universidade que acompanha seus egressos entende melhor seu impacto — e, sobretudo, sua responsabilidade. Em um cenário de rápidas transformações no mundo do trabalho, formar bem é também saber para onde vão — e por que vão — aqueles que passaram por suas salas de aula.
*Agradecemos ao Programa de Iniciação Científica (ProIC/DPG) da UnB pelo financiamento da bolsa que sustentou o projeto.
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