Patricia Medeiros, Marcílio Sérgio Filho, Natália Lopes, Ana Katarina Santos e Raiane Diniz
A rotina de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é marcada por decisões rápidas, alta complexidade e pacientes em situação crítica. Nesse cenário, cada escolha clínica pode impactar diretamente a vida de alguém. Foi a partir dessa realidade que desenvolvemos, na Universidade de Brasília (UnB), a tecnologia em saúde MedUTI, com o objetivo de apoiar profissionais na tomada de decisão e reduzir riscos associados ao uso de múltiplos medicamentos.
O estudo, recentemente publicado em revista científica internacional, Plos One, foi desenvolvido pelos pesquisadores Natalia L. Freitas, Raiane Diniz Oliveira, Ana Katarina da Silva Santos, Marcilio Cunha-Filho e Patricia Medeiros-Souza, sendo Marcilio Cunha-Filho e Patricia Medeiros-Souza professores do Departamento de Farmácia da UnB.
A tecnologia MedUTI foi desenvolvida no ambiente acadêmico e devidamente licenciada pelo Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT), sob o processo nº BR512022000609-0, evidenciando o papel da universidade pública como produtora de soluções concretas para a sociedade.
Um dos principais desafios enfrentados foi lidar com a complexidade dos pacientes internados em UTI, especialmente durante a pandemia de COVID-19. Esses pacientes frequentemente utilizam muitos medicamentos ao mesmo tempo, o que aumenta o risco de interações e eventos adversos, especialmente cardiovasculares. Transformar essa complexidade em informação útil e aplicável na prática clínica exigiu não apenas conhecimento técnico, mas também a capacidade de integrar dados e realidade assistencial.
Durante a pandemia de COVID-19, pacientes internados em UTI frequentemente necessitaram do uso simultâneo de diversos medicamentos (polifarmácia). Embora necessária, aumenta significativamente o risco de reações adversas medicamentosas, especialmente no sistema cardiovascular, podendo levar a arritmias graves e até à morte. Esse cenário exigiu não apenas respostas rápidas, mas também ferramentas capazes de organizar e interpretar a complexidade das prescrições médicas.
A partir da análise de mais de 100 prontuários de pacientes internados em um hospital de referência em Brasília, foi possível observar um perfil de alta gravidade clínica, com predominância de idosos, presença de múltiplas comorbidades, como hipertensão e diabetes, e longos períodos de internação. Esses fatores, associados ao uso intensivo de medicamentos, aumentam ainda mais o risco de eventos adversos.
Utilizando o MedUTI aliado a ferramentas validadas de avaliação de risco, como o escore de Tisdale, foi possível simular intervenções no manejo medicamentoso desses pacientes. Os resultados foram expressivos: houve uma redução de 53% no risco elevado de complicações cardiovasculares, além de uma diminuição de cerca de 30% no número de medicamentos associados a eventos adversos graves. Na prática, isso representa um avanço significativo na segurança do paciente crítico.
Mais do que números, esses achados mostram que decisões mais seguras podem ser tomadas com apoio tecnológico, especialmente em ambientes de alta pressão como a UTI. A tecnologia não substitui o profissional de saúde, mas amplia capacidade e velocidade de análise dos profissionais, contribuindo para um cuidado mais preciso, individualizado e seguro.
Esse trabalho reforça um ponto essencial, que a universidade vai muito além da sala de aula e investir em ciência e tecnologia em saúde não é apenas uma escolha estratégica, mas uma necessidade. Em um sistema de saúde cada vez mais desafiador, soluções desenvolvidas dentro das universidades públicas têm papel fundamental na construção de um cuidado mais seguro, eficiente e humano.
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