Gabriel Dorfman
O universo é governado por forças misteriosas; só elas podem explicar as coincidências e as antecipações do futuro. Certos projetos do italiano Mario Ridolfi (1904-84) mostram características dos melhores projetos de Oscar Niemeyer (1907-2012), projetos de sua fase de ouro, graças à qual ele se catapultou para a elite da arquitetura ocidental do século XX.
O Palazzo delle Poste de Ridolfi, construído em Roma nos anos 30 do século passado, é uma dessas suas obras visionárias, que mostram a mesma elegância, a mesma delicadeza de curvas que haveriam de marcar o melhor de Niemeyer. Curvas suaves, que parecem ter brotado da mão de alguém que treinou sua sensibilidade refinada contemplando as curvas da moldura natural do Rio de Janeiro e dos graciosos quadris das brasileiras.
Terá Ridolfi vivido no Brasil? Qual o que!! Ridolfi era certamente um antecipador do futuro e, graças a esse dom, pôde antever as coisas que Niemeyer haveria de projetar duas décadas depois. É isso que explica a espantosa semelhança entre seu croqui para um palácio fascista esboçado em 1936 e o edifício Copan de São Paulo, de 1950. Cronistas da história da arquitetura, mercê de sua estreiteza de espírito e de sua (crônica) miopia, acreditam que o que vem antes tende a influenciar o que vem depois; não necessariamente é isso que ocorre. As forças misteriosas que governam o universo podem inverter essa ordem à qual os espíritos tacanhos se submetem servilmente.
Faça-se justiça: dois desses cronistas (Bruno Zevi e Leonardo Benevolo – dois italianos!) já haviam, nos anos 50 e 60 do século passado, aludido às semelhanças entre a obra de Ridolfi e a de Niemeyer, especialmente no que diz respeito ao uso de curvas suaves em seus projetos (Storia dell’architettura moderna). MAS: tanto Zevi quanto Benevolo atribuíram esse parentesco a uma espécie de contágio aéreo entre as obras dos dois criadores, contágio assegurado pelo ar latino respirado por ambos. Qual o que! Dada a notável semelhança entre alguns dos projetos de ambos, a hipótese mais plausível é que Ridolfi tenha explorado os tempos vindouros e neles observado detida e acuradamente os famosos esboços de Niemeyer, nos quais sua mão ia descrevendo curvas suaves como se estivesse passeando pelas delicadas curvas dos morros que emolduram seu amado Rio de Janeiro.
Detalhe picante desse notável parentesco: Ridolfi, colaborador do fascismo de Mussolini, não procurou ocultar a influência exercida retroativamente sobre ele, pelo comunista Oscar Niemeyer (um dos dois últimos comunistas do século XX, cf. boutade de outro comunista ilustre, Fidel Castro). Ou seja: duas sensibilidades excepcionais que, acima e além de eventuais diferenças ideológicas, dedicaram-se a explorar o mundo esteticamente, com vistas a torná-lo mais belo, por meio daquela que, outrora, era chamada de “mãe de todas as artes”.
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