Caio Henrique Inácio Ferreira
A Universidade de Brasília não foi pensada para ficar parada no tempo. O projeto de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira era criar uma instituição que entendesse o Brasil e, principalmente, que soubesse se transformar junto com ele. Para isso, a UnB sempre precisou encarar quem deixava do lado de fora. Aqui, a democracia não é um discurso pronto, mas algo que se aprende e se exercita na prática, abrindo espaço para novas trajetórias
Esse aprendizado começou, de fato, há pouco mais de vinte anos. Ao aprovar a política de cotas raciais em 2003 e começar a aplicá-las em 2004, a UnB tornou-se referência para que outras instituições federais e o próprio governo repensassem os modelos de acesso ao ensino superior. Foi essa experiência que permitiu à universidade, anos depois, encarar outra barreira: a exclusão de pessoas trans e não binárias. O direito de estar aqui e produzir conhecimento passou a ser reivindicado por quem, até então, era afastado da vida acadêmica.
A aprovação da resolução que estabeleceu as cotas trans em 2024 foi o resultado de diálogos institucionais e da atuação de coletivos e movimentos estudantis. Como o marco normativo sozinho não resolve todas as lacunas de gestão, a UnB realizou, em 2025, um mapeamento institucional por meio da Secretaria de Direitos Humanos. O objetivo foi coletar dados precisos sobre o quantitativo e a distribuição por perfis dessa comunidade, além de avaliar as necessidades de acolhimento. Esse diagnóstico serviu para identificar onde a universidade falhava (do desrespeito ao nome social à infraestrutura básica), permitindo tirar a inclusão do papel e preparar a gestão para o que viria a seguir.
Em 2026, com o primeiro ingresso via cotas trans, a presença desses estudantes deixa de ser uma previsão normativa para transformar a dinâmica acadêmica. A chegada desses estudantes tira a universidade da zona de conforto ao trazer consigo perspectivas e epistemologias que tensionam o saber convencional. Essa ocupação é, acima de tudo, pedagógica, visto que amadurece a capacidade da instituição de lidar com a diferença, exige currículos mais plurais e transforma os fluxos internos. É nessa renovação do pensamento e da prática que a UnB se torna mais justa e menos burocrática.
O desafio daqui para frente é consolidar esses avanços, compreendendo que a democratização plena exige persistência e maturação institucional. O horizonte é que a identidade de gênero deixe de ser um obstáculo em qualquer etapa da vida acadêmica, da graduação à docência. A história da UnB continua sendo escrita por quem passa por aqui e acredita que a universidade pública tem que ser para todos. As cotas trans são um passo importante nesse caminho, porque uma universidade que aceita ser transformada pela diferença é a que realmente vive a democracia em sua plenitude.
*Artigo comemorativo em virtude do aniversário da UnB.
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