OPINIÃO

Kleber Aparecido da Silva é professor do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas e do Programa de Pós-Graduação em Linguística e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Coordena o Grupo de Estudos Críticos e Avançados em Linguagens (GECAL) e o Laboratório de Estudos Afrocentrados em Relações Internacionais da UnB (LACRI). É bolsista de produtividade em pesquisa pelo CNPq – 2A.  kleberunicamp@yahoo.com.br | kleberaparecidodasilva@gmail.com

Kleber Aparecido da Silva

 

Estudar Relações Internacionais costuma ser apresentado, nas primeiras aulas, como um esforço para compreender “como o mundo funciona”. Os estudantes entram em contato com conceitos como equilíbrio de poder, segurança internacional, diplomacia, governança global e cooperação entre Estados. Aprendem a analisar guerras, alianças, instituições multilaterais e disputas estratégicas. No entanto, em algum momento do percurso intelectual, surge uma pergunta capaz de transformar profundamente essa aprendizagem: quem contou essa história do mundo?

 

Durante grande parte do desenvolvimento do campo das Relações Internacionais, suas teorias dominantes foram formuladas majoritariamente em universidades da Europa e dos Estados Unidos. Essas abordagens nasceram de contextos históricos específicos — as guerras entre potências europeias, a formação do Estado moderno na Europa e as tensões geopolíticas da Guerra Fria. A partir dessas experiências particulares, construiu-se um conjunto de teorias frequentemente apresentado como universal, capaz de explicar a política internacional como um todo.

 

Contudo, para grande parte do planeta, a história internacional não começou com o equilíbrio de poder entre Estados europeus. Ela começou com a expansão colonial, com a escravidão transatlântica, com a expropriação de territórios e com a imposição violenta de hierarquias raciais e econômicas. Essa dimensão histórica esteve, por muito tempo, ausente ou marginalizada nas narrativas centrais do campo.

 

Já no início do século XX, o intelectual e ativista afro-americano W. E. B. Du Bois chamou atenção para a centralidade das hierarquias raciais na organização da modernidade ao afirmar que “o problema do século XX é o problema da linha de cor”. Embora essa afirmação tenha sido formulada no contexto das lutas contra o racismo, ela também oferece uma chave interpretativa poderosa para compreender a ordem internacional. Para Du Bois, o colonialismo, o racismo e a exploração global não eram fenômenos periféricos, mas estruturas fundamentais na construção do sistema mundial moderno.

 

Décadas mais tarde, pesquisadores críticos continuaram ampliando esse diagnóstico. O acadêmico Siba N'Zatioula Grovogui, por exemplo, argumenta que os povos colonizados jamais foram meros objetos da política internacional. Ao contrário, foram sujeitos históricos que produziram pensamento político, formas de resistência e alternativas normativas à ordem global dominante. Essa perspectiva desloca o olhar tradicional das Relações Internacionais, que frequentemente privilegia as ações das grandes potências, e permite reconhecer a agência política e intelectual de sociedades historicamente marginalizadas.

 

De forma semelhante, o pesquisador Robbie Shilliam sustenta que o campo das Relações Internacionais foi construído sobre uma espécie de “amnésia colonial”. Em outras palavras, muitas narrativas teóricas tendem a esquecer — ou a minimizar — o fato de que a ordem internacional contemporânea emergiu em estreita relação com processos de colonização, escravidão e exploração global. Essa amnésia não é apenas um problema historiográfico; ela molda também as perguntas que a disciplina faz e as respostas que considera legítimas.

 

Quando essas perspectivas críticas e decoloniais são incorporadas ao debate acadêmico, ocorre uma transformação significativa no mapa intelectual do campo. Questões que antes eram tratadas como periféricas passam a ocupar lugar central na análise da política global. A história do colonialismo deixa de ser vista apenas como um episódio do passado e passa a ser compreendida como uma estrutura que continua influenciando desigualdades contemporâneas. As migrações internacionais deixam de ser interpretadas exclusivamente como “crises” e passam a ser analisadas à luz de processos históricos mais amplos, envolvendo guerras, fronteiras e assimetrias econômicas construídas ao longo de séculos. O racismo, por sua vez, deixa de ser considerado apenas um fenômeno doméstico e passa a ser entendido como uma força estruturante da própria ordem internacional.

 

Essa mudança de perspectiva revela algo fundamental: produzir conhecimento nunca é um ato puramente técnico. Produzir conhecimento envolve escolhas — sobre quais temas investigar, quais autores citar, quais experiências considerar relevantes e quais histórias merecem ser contadas. Nesse sentido, a produção intelectual também é uma forma de intervenção política.

 

A filósofa e intelectual brasileira Lélia Gonzalez insistia que a produção de conhecimento é sempre uma disputa de narrativas. Recuperar histórias apagadas, valorizar experiências silenciadas e abrir espaço para outras formas de interpretar o mundo são, para ela, formas de ampliar os horizontes da própria reflexão acadêmica.

 

Esse debate é particularmente relevante em contextos universitários comprometidos com a reflexão crítica e com a transformação social. Em instituições públicas de ensino superior, como a Universidade de Brasília, a produção de conhecimento carrega consigo uma responsabilidade adicional: a de contribuir para a construção de interpretações mais amplas, plurais e historicamente conscientes da realidade global.

 

Nesse sentido, ampliar o campo das Relações Internacionais implica também ampliar o seu cânone intelectual. Significa incorporar autoras e autores que durante décadas permaneceram ausentes das bibliografias centrais. Significa investigar temas que muitas vezes foram marginalizados pela disciplina — como colonialismo, racismo global, reparações históricas, epistemologias do Sul e desigualdades estruturais entre países e povos.

 

Mais do que descrever a ordem internacional existente, o estudo das Relações Internacionais envolve também uma reflexão normativa. Ele exige perguntar se a ordem global é justa, quem se beneficia de sua estrutura e quem continua pagando o preço de sua manutenção. As perspectivas críticas e decoloniais lembram que o avanço do conhecimento não ocorre apenas pela repetição de perguntas consagradas, mas também pela coragem de formular novas perguntas — especialmente aquelas que a tradição acadêmica evitou enfrentar.

 

Olhar para as margens do sistema internacional, nesse contexto, não significa deslocar-se para espaços vazios. Ao contrário, significa reconhecer lugares historicamente ricos em memória, pensamento político e imaginação social. Muitas vezes, são justamente essas margens que produzem as ideias capazes de transformar o centro.

 

Se as novas gerações de pesquisadores estiverem dispostas a investigar essas experiências, escutar essas vozes e questionar narrativas estabelecidas, não estarão apenas ampliando o campo das Relações Internacionais. Estarão contribuindo para reconstruí-lo — e, possivelmente, para imaginar formas mais justas de organizar o próprio mundo.

 

Este texto também presta homenagem ao legado intelectual de Amado Luiz Cervo, Professor Emérito da Universidade de Brasília, falecido em 12 de novembro de 2025. Referência fundamental da chamada Escola de Brasília, Cervo dedicou décadas à pesquisa, à docência e à formação de gerações de historiadores, internacionalistas e diplomatas. Seu rigor acadêmico, sua generosidade intelectual e sua contribuição para o estudo da política externa brasileira permanecem vivos nas ideias que ajudou a construir e nas trajetórias daqueles que tiveram o privilégio de aprender com ele.

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