Diana Valls Gallo
Ser mãe e estudante universitária nunca foi tarefa fácil. Para muita gente, inclusive, são papéis incompatíveis. A ideia de que mãe com criança não tem lugar na sala de aula ainda se manifesta de forma explícita: faculdades privadas seguem aparecendo na mídia por expulsar mães e bebês dos espaços de ensino. Quando isso não acontece de forma tão visível, acontece de outras maneiras: estudo com mães universitárias brasileiras identificou níveis graves de danos físicos, psicológicos e sociais associados ao acúmulo dos papéis de estudante e mãe, agravados entre as de menor renda e as que não contam com rede de apoio familiar (Antloga et al., 2023). São obstáculos concretos, estruturais, que não têm a ver com questões individuais — têm a ver com uma universidade pensada, historicamente, para quem não cuida.
Na Universidade de Brasília, um grupo de mães decidiu que não bastava sobreviver a essa realidade: era preciso transformá-la. Cansadas da ausência de um lugar para trocar uma fralda, de não ter onde deixar as crianças enquanto se estuda à noite, da dificuldade de conseguir vaga nas disciplinas obrigatórias por concorrer com quem não tem filhos para cuidar, essas mulheres fundaram, em 2016, o Coletivo de Mães da UnB (Ribeiro et al., 2025). Ao longo desta uma década, o Coletivo foi crescendo, ganhando voz e se organizando com uma convicção clara: a maternidade é uma questão estrutural que exige resposta institucional.
As conquistas começaram a ganhar forma mais concreta em 2023, quando o Coletivo de Mães estreitou laços com a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) numa parceria que resultou em 41 fraldários e na instituição do Grupo de Trabalho das Mães da UnB, com representantes da Reitoria, docentes, técnicas e discentes da graduação e da pós-graduação. Foi esse GT que pavimentou o caminho para a aprovação, em 2024, da Política Materna e Parental da UnB (Resolução CAD nº 0023/2024), redigida conjuntamente pelo Coletivo e pela SDH, marco institucional que reconhece mães, pais e responsáveis legais como sujeitos de direitos acadêmicos diferenciados.
Nesse mesmo período, o Centro de Educação Infantil da UnB (CEI-UnB) inaugurou suas atividades, com 30% das vagas reservadas à comunidade universitária, oferecendo atendimento em tempo integral para crianças de até 5 anos. Em 2025, foi também designada a Comissão Permanente de acompanhamento da Política Materna e Parental, com representação discente do Coletivo de Mães, de diferentes decanatos, do corpo docente e técnico-administrativo — um espaço de governança participativa que já está se reunindo e elaborando diagnósticos para propor novas ações.
Em fevereiro de 2026, foi inaugurada a Cuidoteca da UnB, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, acolhimento noturno gratuito a crianças de 3 e 9 anos. Salas de amamentação foram inauguradas nos campi Ceilândia e Darcy Ribeiro, e está prevista uma terceira, com perspectiva de se tornar um Espaço Família. Também em 2026.1, entrou em vigor a prioridade de matrícula para mães de crianças de até 12 anos, conquista inédita que visa mitigar a evasão dessas estudantes. Estão ainda em negociação a regulamentação de exercícios domiciliares que contemplem a realidade das mães, o acesso de crianças ao Restaurante Universitário com preços subsidiados e uma proposta de ações afirmativas, por meio de cotas, para mulheres mães — iniciativas que avançam na direção de uma universidade que, de fato, caiba a todas as pessoas.
Nenhuma dessas conquistas surgiu do acaso. Surgiram de mães que, mesmo exaustas, encontraram tempo — o bem mais escasso na rotina de quem cuida — para escrever relatórios, participar de reuniões, ocupar cadeiras em comissões. A universidade ainda não é plenamente acolhedora para quem é mãe, mas o caminho percorrido mostra que é possível mudar, desde que se reconheça o que sempre foi verdade: cuidar é trabalho e dá trabalho, e quem cuida tem direito de estudar, de pesquisar, de pertencer.
Referências:
Antloga, C., Monteiro, R., Bentes, A., Cassimiro, E., & Assunção, F. (2023). Percepção de danos físicos, psíquicos e sociais no trabalho de ser mãe universitária. Psicologia: Ciência e Profissão, 43, e253141.
Ribeiro, C. C. F., Silva, J. B. P., Gallo, D. V., Silva, T. F., & Duarte, T. S. (2025). O Coletivo de mães da UnB: a resistência pelo conhecimento e pela inclusão. In H. C. Barroso et al. (Orgs.), Maternidade, parentalidade, família e temas transversais (pp. 123–137). Editora Universidade de Brasília.
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