OPINIÃO

 

Anabelle Carrilho é professora do Departamento de Serviço Social da UnB. Pesquisadora dos Grupos de Pesquisa Trabalho, Educação e Discriminação (TEDis) e Gênero, Política Social e Serviços Sociais (GENPOSS).

 

 

Thaís Imperatori é professora do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da UnB. Está realizando estágio pós-doutoral na Universidade de Alcalá - Espanha.

 

Anabelle Carrilho e Thaís Imperatori

 

No dia 15 de maio comemoramos o dia do/a assistente social, profissão que em 2026 completa 90 anos no Brasil. Sua origem, com a criação do primeiro curso na Escola de Serviço Social de São Paulo, remete às ações sociais da Igreja Católica diante da organização da classe trabalhadora no contexto de avanço da industrialização e da reconfiguração do Estado no enfrentamento à questão social nos anos 1930.

 

Foi na década de 1960, com as intensas transformações e ebulições sociais ocorridas no mundo e na América Latina, com teorias e correntes críticas, contestatórias e revolucionárias na política, na vida científica e cultural, que o Serviço Social passa a questionar a própria profissão em um movimento interno, mas não endógeno, de reconceituação. Entretanto, mesmo nesse período, de renovação e modernização, assiste-se à manutenção de pensamentos conservadores, principalmente no contexto de instauração violenta de um regime ditatorial no país.

 

Desde os anos 1970 e 1980, o Serviço Social tem consolidado sua perspectiva crítica, alinhada a um projeto societário que defende a liberdade, os direitos humanos, a cidadania, a democracia e a justiça social. Essas não são meras palavras de ordem, mas expressam uma direção ético-política que entende a necessidade de condições concretas de dignidade e de participação política para todas e todos, principalmente os grupos que historicamente são alvo de discriminações e preconceitos.

 

Nesses 90 anos, o projeto profissional do Serviço Social ganhou materialidade com o Código de Ética de 1993, a Lei nº 8.662/1993, que regulamenta a profissão de assistente social (1993), e as Diretrizes Curriculares da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social de 1996. Contemporaneamente, a análise estrutural e conjuntural da realidade brasileira e a conexão dos fundamentos históricos e teórico-metodológicos da profissão a ela, se colocam como prioridade ao Serviço Social.

 

Defender esse projeto exige formação crítica e densa, que alinhe as dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa, o que tem se tornado cada vez mais difícil em um cenário de expansão da educação superior privada e à distância no Brasil.

 

De acordo com dados da pesquisa mais recente sobre o perfil profissional publicada pelo Conselho Federal de Serviço Social (CFESS, 2022), 71% dos assistentes sociais se formaram em instituições privadas de ensino superior, sendo a grande maioria em instituições com fins lucrativos, orientadas pela lógica mercantilizada da educação.

 

Em 2026, ano em que o curso de Serviço Social da Universidade de Brasília completa 55 anos, toda comunidade acadêmica foi convidada a refletir sobre a atualidade do Projeto Pedagógico dos cursos diurno e noturno. Os principais desafios debatidos coletivamente dizem respeito à conexão indissociável entre teoria e prática e à necessidade de revisão curricular orientada pelo diálogo transversal com as especificidades territoriais do Distrito Federal e com as estruturais desigualdades de raça e gênero que conformam a formação sócio-histórica brasileira, reconhecendo que estas afetam frontalmente tanto assistentes sociais, quanto a população usuária das políticas e serviços nos quais atuamos, cada vez mais precarizados.

 

Diante do avanço da precariedade da rede de proteção social, com o subfinanciamento neoliberal e o avanço do neoconservadorismo, o Serviço Social permanece como profissão de contracorrente, articulada a um projeto societário radicalmente democrático, só possível com a distribuição da riqueza socialmente produzida e o reconhecimento das desigualdades que estruturam a sociedade. Que a celebração dessa data não seja apenas um ato protocolar, mas um convite à reflexão crítica sobre a importância da trajetória do Serviço Social e dos compromissos com a sociedade que queremos construir.

 

Referência

CFESS. Perfil de assistentes sociais no Brasil: formação, condições de trabalho e exercício profissional. Brasília, 2022. 

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