Braulina Baniwa
As nossas primeiras referências para nos tornamos cientistas são nossas mães e nossas avós, mesmo que nunca tenham pisado numa universidade, é a partir delas que temos as nossas primeiras vivências e experiências de quem referenciar para chegar em determinado lugar. O tempo do outro é diferente do nosso.
Para iniciar essa escrita, gostaria de saudar as minhas companheiras indígenas, do coletivo de estudantes indígenas mulheres da UnB, as mães universitárias, as que já vieram mães de seus territórios e as que se tornaram durante a jornada na universidade, que logo se tornarão cientistas como eu, em suas áreas de profissão, assim como tantas outras minhas referências na antropologia, as que desafiaram a sua cultura territorial e a saudades dos filhos.
O caminho para torna-se cientista de diploma não desvaloriza o rigor científico milenar do nossos povos, que é a nossa ciência indígena presente nos detalhes de tecnologias de cuidado com nossos filhos e a que nossas mães têm conosco durante a nossa infância, o que nos proporciona validar a ciência presente no nosso corpo para que o mundo indígena as respeite.
Em 2021, fui convidada para escrever sobre o corpo indígena presente na universidade, me desafiei a escrever sobre o corpo território coletivo, que carrega a memória histórica do seu povo. Para essa oportunidade, trago sentimento de mãe para o mês das mães, vou me atrever trazer o processo revolucionário das mulheres indígenas dentro das universidades.
A maternar no espaço de formação e transformação, que na maioria das vezes é motivo de crítica, para nós é sobre trazer a ciência indígena presente no corpo, para espaço de escrita. No tempo das mulheres, a maternidade é diversa no mundo das indígenas mulheres, tem as que casaram cedo e tiveram seus filhos e depois buscaram formação profissional, tem as que carregam maternidade em paralelo a sua formação, e as que deixam seus filhos em busca de formação para proporcionar futuro diferente para seus filhos.
Mas esse corpo enfrenta vários questionamentos individuais, coletivos, sejam elas internas e externas, mas e aí, com quem ficam as crianças? Tem recurso para pagar alguém para tomar conta? Quem é que fica responsável quando essas mães estão nas universidades?
São inúmeras culpas que carregamos, será que dou conta? Aqui quero exaltar 3 mulheres que me receberam quando cheguei na UnB, duas do povo Tupinikim e uma Macuxi, as 3 já eram mães e dividimos o sofrimento da saudade dos filhos. O território e a territorialidade nos fortaleceram a não desistir, vi elas se formando e famílias celebrando suas conquistas. Nossa, é possível, um dia serei eu com meus filhos celebrando. Hoje são elas as que coordenam pauta de saúde indígena nos seus territórios, e minhas grandes referências de maternagem indígena na UnB.
As trajetórias e os caminhos na universidade nos aproxima e nos afasta durante o percurso. Filhos se tornaram energias para não desistir, lembro-me da minha história, meu segundo filho teve diagnóstico de pneumonia lá no Amazonas, o sofrimento e a vontade de largar todo para ir ao encontro do meu filho, que estava há 1.500 km longe de mim.
Mas a outra mãe amiga me acolheu, como voltar sem diploma para casa, isso não é propósito de estarmos aqui? O silêncio toma conta e as lágrimas sem explicação, a tecnologia de cuidado e ciência do colo de uma mãe ausente, naquele momento, quando ele estava precisando.
A segurança após as lágrimas era saber que ele estava no corpo território de cuidado e colo cheio de afetos que um dia já cuidou de mim, estava sob cuidado da minha mãe. Nós, as mães indígenas, a nossa forma de maternar é coletiva, nossas mães são mães dos nossos filhos, nossas irmãs são mães dos nossos filhos e tias que, no caso, às vezes, são cunhadas ou amigas das mães se tornam mães do nossos filhos. Mas nem sempre isso é possível, existe também a maternidade solitária, devido a estar longe de familiares ou ter perdido mãe cedo, isso também é uma realidade na vida das universitárias indígenas.
Portanto, não há apenas uma realidade sobre maternagem e experiências na universidade, elas são diversas, somos mães na diversidade, nas nossas histórias, mas tem um elo comum é sermos mães sonhadoras e revolucionárias, ouvimos muitos absurdos também. Nossa, como pode ser mãe tão jovem, você não deveria estar na floresta cuidando do seu filho? Essa abordagem nas aulas nos faz nos questionar, eu deveria estar aqui? Nos eventos que frequentamos, tem os professores que não permitem conhecer a nossa realidade sobre as nossas decisões, é sempre um questionamento maldoso.
A disputa de conceito de ser indígena cientista carrega um posicionamento político de força das mães indígenas universitárias, o peso da responsabilidade e continuar na luta, veio o avanço significativo com a nossa presença, o tão sonhado desejo, é possível mesmo depois da maternidade ter uma profissão, a decisão de se torna uma cientista, dá brechas para sonhar e revolucionar a sua narrativa de história, e passa ser inspiração para muitas gerações, assim como minhas 3 parentas foram para mim, tento ser para outras mães e para minhas sobrinhas e filhas, a vida não acaba quando nos tornamos mães, é onde temos oportunidade de fazer diferença por nós e por eles.
A maternidade nos escolheu e escolhemos juntos ter uma carreira, conciliamos ausência, saudades e carregamos os nossos filhos na tipoia para assistir aulas e eles por sua vez assistir no dia que recebemos as nossas diplomas, nossa jornada ela não dupla, é para além disso, a nossa conexão de jornada perpassa no processo de escolhas e sermos escolhidas para sermos mães, referências e cientistas, não frequentamos apenas as aulas, construímos o protagonismo desde chão do território a sermos referências nas nossas pesquisas, hoje celebro todas as lágrimas e choro de saudades, vendo as mães retornarem aos seus territórios como grandes profissionais, hoje essas mães que enfrentaram saudades são grandes profissionais que ocupam espaços em diferentes instituições e nós, cientistas pesquisadoras, seguimos sendo referência para os e as que vêm depois de nós.
Tenho uma amiga engenheira florestal que está na sua segunda gravidez e é uma grande pesquisadora e tenho amiga que é especialista em matemática, nós três somos alunas de doutorado, cada uma na sua área de atuação, e uma amiga nossa que, depois de defender doutorado, recebeu a notícia que seria mãe pela terceira vez. Amo a alegria de sermos mães do nosso jeito, nosso tempo, isso é revolucionário, maternidade não é vergonhoso, carregar filho na sala de aula não deveria ser estranhado ou ser questionado, alunos na sala de aula e professor/professora nasceram de uma mãe.
As nossas tecnologia de cuidado e colo se transformam na estratégia de sermos mães sonhadoras e que não necessariamente estamos nas roças, florestas ou cuidando dos filhos para dormir diariamente, mas somos mães no nosso tempo de cuidado, sem culpa e nos tornando grandes profissionais, e quem não é mãe nunca saberá o sentimento de uma conquista de uma mãe, poder estar presente nas reuniões escolares, atividades de festinha, e que carrega filho para reuniões e sala de aula. Existe uma vida de maternidade indígena muito diferente de quem romantiza maternidade, somos seres humanos com direito a escolher e sermos escolhidas. E merecemos ocupar o lugar que escolhemos ocupar e merecemos ser amadas pelos nossos filhos com aquele brilho no olhar de ser nossos filhos, e poder desse sentimento nenhum diploma explica.
ATENÇÃO – O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor, expressa sua opinião sobre assuntos atuais e não representa a visão da Universidade de Brasília. As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seu conteúdo.

