OPINIÃO

 

Marcelo Ximenes Aguiar Bizerril é professor titular da Faculdade UnB Planaltina, da qual foi diretor entre 2008-2012 e entre 2016-2020.


Marcelo Bizerril

 

Em 16 de maio de 2026, o campus da UnB em Planaltina, a FUP, completa 20 anos. Não faltam motivos para comemorar, desde o êxito dos cursos de graduação e pós aos projetos de pesquisa e extensão, que seguem impactando Planaltina e um vasto território que rompe em muito as fronteiras do DF e de Goiás. Devemos festejar nossas instalações acolhedoras e que convidam o visitante a partilhar o espaço e refletir sobre as tantas possibilidades da universidade pública, a partir do contato com o Cerrado e os grafites de Freire, Primavesi, Balduíno, Cora, Lélia, e tantos outros. É hora de celebrar a diversidade e o brilho dos nossos estudantes, e o sucesso e parceria dos egressos, que sempre relatam as saudades que sentem da FUP. Enfim, agradecer a amizade e o convívio alegre entre professores(as) e técnicos(as). Não é raro ouvir de visitantes que pisam pela primeira vez na FUP que o ambiente ali é ‘leve, sei lá, diferente!’

 

Vamos, portanto, comemorar! Mas não é o suficiente...

 

É fundamental compreender e ressaltar o sentido histórico da criação dessa instituição a serviço da sociedade como uma conquista popular e coletiva. Um campus se constrói a muitíssimas mãos que incluem os gestores, a comunidade acadêmica e a comunidade do território que o recebe. Dessa mistura de visões, demandas e participação é moldado o perfil, sempre em construção, da pequena representação do poder federal ali implantada. Nesse contexto, a gestão superior da UnB é peça fundamental do processo, pois é ela que dá a sustentação ao projeto em curso que carrega o peso do nome e da história da universidade federal brasileira. Registro aqui o reconhecimento e o agradecimento a todos os reitores e reitoras que tem acompanhado e apoiado o desenvolvimento da FUP desde os primeiros dias. Reitores e reitoras que são também colegas professores e professoras, parceiros e parceiras do mesmo projeto de defesa da educação superior pública de qualidade e do espírito revolucionário que originou a Universidade de Brasília. Faço justiça ao destacar a visão e coragem do reitor Lauro Morhy que deu início à expansão antes de qualquer sinalização de apoio do governo federal, inaugurando o primeiro prédio em 2003 e realizando os primeiros dez concursos para docentes em 2005. A partir daí, a FUP contou com o apoio firme e parceria de todos os reitores que se seguiram: Timothy Mulholland, Roberto Aguiar, José Geraldo Sousa Jr., Ivan Camargo, Márcia Abrahão e Rozana Naves.

 

Mas há um outro detalhe...

 

Na verdade, não é um detalhe, mas um fator decisivo para estarmos comemorando 20 anos da FUP. A viabilização desse campus, assim como dos campi da UnB na Ceilândia e no Gama, e de mais de uma centena de outros espalhados em todos os estados brasileiros se deve a uma política pública do segundo mandato do presidente Lula, chamada REUNI, que é o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais. Lançado em 2007, o REUNI revolucionou a universidade pública federal brasileira ampliando vagas, renovando a estrutura física, contratando docentes e técnicos, e possibilitando a criação de novos cursos e campi, sobretudo na periferia das grandes cidades e no interior do Brasil (Bizerril, 2020). Isso levou a uma mudança radical no perfil dos estudantes universitários brasileiros, já iniciada pela política de cotas para negros, sendo a UnB pioneira entre as federais, as implantando em 2004. Isso precisa ser explicado e recontado especialmente porque já temos uma geração de estudantes nascidos depois da inauguração da FUP, que foi um dos primeiros campi do REUNI (note-se que o prédio Paulo Freire foi uma das primeiras obras concluídas no programa e foi inaugurada pelo então Ministro da Educação Fernando Haddad). Para muitos jovens pode parecer que a presença da universidade pública na periferia é algo ‘natural’, mera obrigação do Estado em prover educação de qualidade para todos. É uma obrigação constitucional, de fato, mas até então nenhum governo havia tido essa compreensão e assumido tal responsabilidade, e o que vimos nos governos que se seguiram ao golpe que destituiu a presidente Dilma foi não apenas o fim da expansão, mas o corte orçamentário abrupto e a perseguição e desqualificação da universidade pública, que reverbera até hoje entre a juventude.

 

Nesse aniversário temos, portanto, muito a fazer: comemorar o que deve ser celebrado, agradecer a quem devemos reconhecimento, e fortalecer a memória, pois a luta em defesa da educação pública se faz a cada dia, nas ruas, e a cada quatro anos, nas urnas.

 

Referência

Bizerril, M. X. A. (2020). O processo de expansão e interiorização das universidades federais brasileiras e seus desdobramentos. Revista Tempos e Espaços em Educação, 13(32), 1–15. 

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