Marcos Fabrício Lopes da Silva
Não seria demais dizer que a violência policial já pode ser enquadrada como uma tragédia brasileira, assim como é a violência dos criminosos, o feminicídio, a corrupção, a fome e a miséria, refletida nas milhares de pessoas abandonadas nas ruas. Enquanto a barbárie representa o triunfo da selvageria e a banalidade do mal, a justiça, como vetor de qualidade de vida, significa assegurar equidade social, respeito aos direitos fundamentais e condições dignas de existência, promovendo segurança, confiança e bem-estar coletivo.
A educação propõe a advocacia do melhor estilo de vida, a saber: o cultivo da cidadania responsável, a valorização da ética, o respeito à diversidade, a busca pelo conhecimento crítico e a promoção da justiça social como fundamentos de uma convivência equilibrada e solidária. Brasileiros e brasileiras vêm sendo prejudicados pela falta de cumprimento dos seus direitos sociais. Os investimentos, nesse sentido, mostram-se insuficientes. A política econômica concentra grande parte de sua atenção na garantia da responsabilidade fiscal, no combate à inflação e na satisfação dos anseios do mercado.
Ainda no pesado quadro da vida nacional, a segurança pública permanece orientada por uma cultura de matriz repressiva. Nesse contexto, torna-se difícil cultivar uma cultura da gentileza no âmbito do cárcere. A superlotação dos presídios revela um sentimento vingativo que ignora os direitos humanos da população encarcerada. A chamada ‘universidade da criminalidade’ expõe, de forma indecorosa, o fracasso do nosso projeto civilizatório.
A cultura dos extremos, além de promover divisões sociais e intolerância, alimenta discursos de ódio, fragiliza o diálogo democrático e dificulta a construção de consensos necessários para o bem comum. A formação humana se enriquece quando exposta a perspectivas plurais. Perigosamente, consolida-se a crença de que temas difíceis e controversos não devem ser enfrentados por meio de investigação rigorosa, evidências empíricas e análise ponderada, mas sim por mecanismos de censura e intimidação, legitimados pelo sentimento de se fazer justiça. Do mando e da obediência nasceram regimes autoritários, com o fascismo guiando, de forma sombria, o rumo da política ditatorial.
A democracia, antes de ser um sistema de governo, é um estilo de vida. Por isso, exige participação ativa, respeito às diferenças, compromisso com os direitos humanos e a prática cotidiana da liberdade e da responsabilidade. A prática discriminatória compromete a integridade do modelo democrático, desfigurando sua essência popular e universal. A necessidade de agir na urgência e decidir sob incerteza contribui para o aprimoramento da gestão das relações institucionais e pessoais no âmbito administrativo da sociedade. Os riscos lapidam o fazer gerencial, mesmo quando o planejamento estratégico se ergue como escudo de cautela e prudência.
A maior prova de ousadia está no campo da invenção. Por isso, floresce no inesperado, ilumina o desconhecido e dá forma aos sonhos humanos. Vem do campo literário uma grande lição em matéria de ciência política. O escritor inglês Oscar Wilde (1854-1900), em aforismo interessante, disse: “Há um só mundo para todos; os bons e os maus, o pecado e a inocência passam por ele de mãos dadas. Querer ignorar metade da vida só para se ter uma existência segura, seria como cegar-se para caminhar com maior segurança num terreno cheio de buracos e barrancos”. No popular, a arte de resolver pepino e descascar abacaxi ilustra o gerenciamento de crise como grande missão. Por isso, revela a capacidade de transformar problemas complexos em soluções criativas e de manter a serenidade diante das adversidades. Não por acaso, precisamos de poderes inventivos para que o bem comum prospere de verdade.
ATENÇÃO O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor e expressa sua visão sobre assuntos atuais. Os textos podem ser reproduzidos em qualquer tipo de mídia desde que sejam citados os créditos do autor. Edições ou alterações só podem ser feitas com autorização do autor.

