OPINIÃO

Kleber Aparecido da Silva é professor do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas e do Programa de Pós-Graduação em Linguística e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Coordena o Grupo de Estudos Críticos e Avançados em Linguagens (GECAL) e o Laboratório de Estudos Afrocentrados em Relações Internacionais da UnB (LACRI). É bolsista de produtividade em pesquisa pelo CNPq – 2A.  kleberunicamp@yahoo.com.br | kleberaparecidodasilva@gmail.com

Kleber Aparecido da Silva

 

Quando se fala em África, ainda persiste no imaginário de muitas pessoas a ideia equivocada de um continente homogêneo — cultural, étnica e linguisticamente uniforme, como se uma única voz pudesse representar territórios, histórias e experiências tão diversas. Essa simplificação, frequentemente herdada de narrativas coloniais e reproduzida em diferentes meios de comunicação ao longo do tempo, apaga uma realidade fundamental: a África não é uma voz, mas um vasto coro. Um coro de línguas, memórias, silêncios e resistências.

 

Basta um olhar mais atento para os mapas linguísticos africanos produzidos pela UNESCO, para os dados do Ethnologue e para o Atlas Mundial das Línguas Ameaçadas para perceber que a África é, possivelmente, um dos espaços de maior diversidade linguística do planeta. Celebrar o Dia da África, em 25 de maio, não é apenas recordar um marco político da história do continente, mas também reconhecer essa imensidão de formas de dizer o mundo — e de existir nele.

 

O continente africano abriga mais de duas mil línguas vivas, distribuídas em dezenas de famílias linguísticas e faladas por centenas de milhões de pessoas. Segundo o Ethnologue, cerca de um terço das línguas existentes no planeta está em território africano. Mas esses números, por si só, não dão conta da profundidade do fenômeno. Cada língua não é apenas um sistema de comunicação: é um arquivo vivo de experiências humanas, um modo singular de organizar o pensamento, o tempo, a memória e os afetos.

 

O chamado “Mapa Linguístico da África”, presente na coleção História Geral da África da UNESCO, revela essa complexidade histórica de forma quase impressionante. No continente, convivem famílias linguísticas antigas e profundamente enraizadas, como as línguas afro-asiáticas, nilo-saarianas, khoisan e as nigero-congolesas — estas últimas entre as maiores do mundo em diversidade interna. Dentro desse vasto universo estão línguas como o suaíli, iorubá, hauçá, zulu, lingala, amárico, somali, xhosa e wolof, cada uma portadora de mundos inteiros.

 

Em muitas sociedades africanas, a língua não está separada da vida: ela a atravessa. A oralidade ocupa um lugar central na transmissão de conhecimento, na preservação da memória e na construção da identidade coletiva. Histórias são contadas ao redor de fogueiras, provérbios orientam decisões comunitárias, cantos acompanham rituais de passagem, e genealogias mantêm viva a ligação entre gerações. Nesses contextos, falar não é apenas comunicar: é lembrar, é ensinar, é existir em comunidade.

 

Perder uma língua, nesse sentido, não é um evento neutro. É o silenciamento gradual de uma forma única de ver o mundo. É o desaparecimento de palavras que nomeiam sentimentos sem tradução direta, de saberes ecológicos refinados, de filosofias que não foram escritas, mas vividas e transmitidas pela voz. O Atlas Mundial das Línguas Ameaçadas, da UNESCO, alerta justamente para esse processo silencioso: centenas de línguas africanas estão em risco de desaparecimento, muitas delas com poucos falantes idosos restantes.

 

As causas desse processo são históricas e profundas. O colonialismo europeu desempenhou um papel decisivo na reorganização das hierarquias linguísticas do continente. Durante séculos, línguas como o francês, o inglês e o português foram impostas como instrumentos de administração, educação e poder. Em muitos contextos, falar a própria língua passou a ser associado à marginalização, enquanto falar a língua do colonizador tornou-se sinônimo de acesso a oportunidades.

 

Essa violência simbólica produziu efeitos duradouros. Em diversas sociedades, gerações inteiras foram educadas longe de suas línguas maternas. Crianças foram punidas por falá-las nas escolas. Famílias passaram a interromper a transmissão linguística como estratégia de sobrevivência social. Assim, o que se perde não é apenas uma língua, mas um elo afetivo entre passado, presente e futuro.

 

Ainda assim, a história africana não é uma história de perda — é também uma história de resistência e reinvenção. Muitas línguas seguem vivas, pulsantes e profundamente enraizadas no cotidiano. O suaíli, por exemplo, tornou-se uma das principais línguas francas da África Oriental, conectando povos e atravessando fronteiras nacionais. O hauçá desempenha papel semelhante na África Ocidental. O amárico preserva sua força institucional na Etiópia. E o iorubá ecoa não apenas no continente africano, mas também na diáspora, especialmente nas Américas.

 

Essa dimensão transatlântica da língua revela outra camada dessa história: a África não terminou em suas fronteiras geográficas. Ela se expandiu pelo mundo por meio de suas línguas, suas culturas e seus corpos. No Brasil, por exemplo, palavras de origem africana permanecem profundamente enraizadas no cotidiano: “cafuné”, “quitanda”, “moleque”, “dendê”, “caçula”. São rastros linguísticos de uma presença que não foi apagada, apesar da violência da escravidão e da tentativa histórica de silenciamento.

 

Mas talvez o mais profundo dessa herança não esteja apenas nas palavras isoladas, e sim na própria forma de sentir e nomear o mundo. Nas musicalidades da fala, nas expressões afetivas, nos modos de narrar a vida e de organizar a experiência comunitária. A língua, nesse sentido, atravessa o tempo e resiste mesmo quando seus falantes são deslocados, dispersos ou silenciados.

 

Refletir sobre a pluralidade linguística africana também é confrontar uma visão hierárquica do conhecimento que durante muito tempo desvalorizou as línguas africanas, classificando-as como “simples”, “orais demais” ou “não científicas”. A linguística contemporânea, no entanto, desmonta essas construções. Muitas línguas africanas possuem sistemas tonais extremamente sofisticados, estruturas gramaticais complexas e tradições literárias riquíssimas, tanto orais quanto escritas.

 

Mais do que isso, essas línguas carregam filosofias. Elas organizam relações sociais, concepções de pessoa, formas de justiça, entendimentos sobre natureza e espiritualidade. Em outras palavras, elas não apenas descrevem o mundo — elas o interpretam e o constroem.

 

Por isso, o Dia da África não deve ser apenas uma celebração protocolar. Ele pode ser também um convite à escuta. Escutar a África em sua multiplicidade é reconhecer que o mundo não fala uma única língua da modernidade, do conhecimento ou da história. Escutar é também admitir que há saberes que não passaram por tradução, que há pensamentos que não foram completamente capturados por categorias ocidentais, e que há formas de vida que resistem justamente por permanecerem plurais. Num mundo marcado pela aceleração da globalização e pela homogeneização cultural, a perda de línguas não é apenas um fenômeno africano, mas um alerta global.

 

Referências

ETHNOLOGUE. Languages of the World. Dallas: SIL International, 2025. Disponível em: https://www.ethnologue.com. Acesso em: 25 maio 2026.

UNESCO. Atlas of the World’s Languages in Danger. Paris: UNESCO Publishing, 2010. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org. Acesso em: 25 maio 2026.

UNESCO. História Geral da África. Brasília: UNESCO no Brasil; São Carlos: EDUFSCar, 2010. Coleção em oito volumes.

UNESCO. Mapa Linguístico da África. In: KI-ZERBO, Joseph (org.). História Geral da África I: Metodologia e Pré-História da África. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.

SIL INTERNATIONAL. Ethnologue: Languages of Africa. Dallas: SIL International, 2025. Disponível em: https://www.ethnologue.com/subgroups/africa. Acesso em: 25 maio 2026.

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