OPINIÃO

Jeane Cristina Gomes Rotta é professora na Faculdade de Planaltina da UnB. Coordena o LAPEC I, laboratório que desenvolve atividades de pesquisa e extensão, integrando as escolas básicas de Planaltina e os licenciandos do curso de Ciências Naturais.

Jeane Cristina Gomes Rotta

 

Fazer parte da construção de uma história que começou em 2006 envolve muitos sentimentos que revivem os desafios da implementação de um campus de expansão. Nessa perspectiva, há 20 anos, dez docentes, juntamente com os técnicos administrativos, iniciaram um projeto que envolveu uma proposta de criação de duas graduações: Licenciatura em Ciências Naturais e Gestão do Agronegócio. Nos anos que seguiram-se, novos cursos foram criados, a licenciatura em Educação do Campo e a Educação Ambiental.

 

Durante esse percurso, cada decisão colegiada estava envolta de intenções que buscavam formar profissionais de excelência na nossa Faculdade UnB Planaltina (FUP), o primeiro campus de expansão da Universidade de Brasília. Essa perspectiva embasou a escolha das disciplinas, organização das práticas pedagógicas e elaboração das matrizes curriculares e do perfil de cada profissional.

 

Com um olhar, mais focado para a licenciatura em Ciências Naturais, em que atuo como docente, desde a sua fundação, me recordo de reviver tensões que pautavam-se entre os desejos de inovação curricular e da tradição acadêmica. Uma vez que, ao criarmos uma licenciatura com um perfil interdisciplinar como esse, que integra saberes de diferentes áreas do conhecimento, havia a vontade de rompermos com estruturas já estabelecidas. No entanto, acabávamos comprometendo o cumprimento de determinadas exigências institucionais. Além disso, também havia outro dificultador, que foi a inexistência de Diretrizes Curriculares Nacionais para essa licenciatura, fato que ainda permanece até os dias atuais.

 

Nesse contexto, percebemos que os desafios para a formação de professores de Ciências Naturais persistem para além de sua implementação, posto que ainda buscamos reconhecimento e identidade para esse profissional com formação interdisciplinar para atuar na Educação Básica. Para além desses pontos, cada vez mais também percebemos que formar professores é uma prática de liberdade que “ensina a transgredir” (hooks, 2017), que transforma sala de aula em espaço de diálogo e envolve uma pedagogia feminista e antirracista, no qual os estudantes possam questionar e mudar estruturas de opressão.

 

Assim, em sua maioria, os docentes das Ciências Naturais visam ampliar uma formação transgressora ao incorporarem questões de raça, gênero e classe na reflexão pedagógica. De forma em que, alinhados com hooks (2017), a sala de aula deve ser um espaço de liberdade, o qual introduz uma dimensão afetiva que muitas vezes é negligenciada no campo educacional. Nesse sentido, a pedagogia engajada exige presença, escuta e disposição para enfrentar conflitos, reconhecendo as diferenças como potencialidades e não como obstáculos.

 

Esperançamos que nos próximos anos a FUP tenha transgredido ainda mais e possibilitado uma formação superior que reconheça e confronte racismo e sexismo, integrando experiências e linguagens marginalizadas em vez de reproduzir o pensamento colonial e elitista. Que cada vez mais possamos continuar nos orgulhando de estarmos caminhando para um ensino acadêmico que não receie valorizar o entusiasmo, a inclusão e o amorosidade.

 

Referências

HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

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