Lívia de Lacerda de Oliveira e Marileusa Dosolina Chiarello
O Distrito Federal é mais conhecido pela política do que pela cafeicultura. Mas, em propriedades rurais distribuídas por diferentes regiões administrativas, uma cadeia produtiva vem ganhando forma, identidade e dados para crescer. Pesquisa conduzida pela UnB em parceria com a Embrapa, a Emater-DF, o INMET, o IFES Campus Venda Nova do Imigrante - ES e a Associação de Produtores Elo Rural está construindo um retrato integrado da cafeicultura do DF, reunindo informações sobre produtores, ambiente, manejo, solos, grãos, bebidas e consumidores.
O estudo integra um projeto financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), no âmbito do edital AgroLearning, e parte de uma pergunta central: o café produzido no DF tem características próprias capazes de sustentar uma estratégia de valorização territorial?
Para respondê-la, a equipe combinou pesquisa de campo, análise estatística e avaliações laboratoriais. Com apoio da Emater-DF e da Embrapa Café, foram aplicados questionários diretamente aos produtores. A base reúne 134 propriedades com respostas válidas e abrange os perfis sociodemográficos, estruturais, de assistência técnica, de manejo, de colheita, de pós-colheita e de comercialização. A UnB conduziu a organização e análise dos dados, transformando formulários de campo em indicadores para apoiar decisões públicas e privadas.
Os resultados mostram uma atividade em expansão, ainda em processo de consolidação econômica. Embora o DF tenha uma área cafeeira pequena em relação aos grandes estados produtores, apresenta condições agroambientais favoráveis. O território apresenta altitudes entre 750 e 1.350 metros, com predominância de áreas entre 900 e 1.200 metros. Em 2024, a produção de café no DF foi estimada em 1.098 toneladas, em área plantada de cerca de 400 hectares. A produtividade média de produtores consolidados é de cerca de 39 sacas por hectare, superando a média nacional indicada para o café arábica.
O diagnóstico também revela quem são os cafeicultores do DF. Entre os produtores registrados, 43 são mulheres, o que corresponde a cerca de um terço do total. A maior parte está acima dos 50 anos, o que indica experiência acumulada e chama a atenção para a sucessão rural. O levantamento aponta escolaridade relativamente elevada e forte vínculo à terra: a maioria reside na própria propriedade. Quase 60% relatam acessar publicações técnicas sobre café, mas apenas cerca de 30% participaram de capacitações.
A distribuição espacial da atividade é heterogênea. Sobradinho II, Brazlândia, Ceilândia e Planaltina concentram mais de 60% dos produtores entrevistados, mas a cafeicultura se desenvolve em diferentes compartimentos do território, com distintas condições de solo, relevo e bacias hidrográficas. Por isso, a pesquisa não se limita a contar produtores ou sacas: busca compreender como o ambiente, o fator humano e o manejo formam perfis de qualidade.
Além dos questionários, o projeto avança em outras camadas de análise. Amostras de solo são avaliadas quanto à fertilidade, aos micronutrientes e à textura. Grãos verdes passam por análises físicas, químicas e de classificação; grãos torrados são investigados quanto aos compostos voláteis; e a bebida é avaliada por meio de protocolos sensoriais da Specialty Coffee Association (SCA). Há ainda um estudo de consumidores sobre a origem, a qualidade e o valor percebido.
Os dados indicam oportunidades e desafios. Em muitas propriedades, o café ainda não é a principal fonte de renda, o que sugere uma cadeia em consolidação. Ao mesmo tempo, há base técnica, engajamento institucional e condições ambientais promissoras para qualificar a atividade, diferenciar produtos e fortalecer estratégias de agregação de valor.
Para a UnB, a pesquisa evidencia o papel da universidade na integração entre ciência, extensão e desenvolvimento territorial. Mais do que comprovar se o DF tem bons cafés, o projeto busca gerar dados para orientar políticas públicas, assistência técnica, capacitação, organização produtiva e reconhecimento de origem. Em um mercado atento à qualidade e à história por trás da xícara, compreender o território pode transformar o café do DF em uma identidade reconhecida.
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