Miguel Gally de Andrade
Acordei em Curitiba com um incrível céu azul depois de dias de chuva e nuvens. Achei que fosse um bom sinal para a estreia do Brasil na copa. Mas logo percebi que todo aquele sol não conseguia dissipar o frio. Não vi muita gente com a camisa da seleção no trajeto até o aeroporto, nem tampouco pontos de venda de ambulantes vendendo camisas. O motorista bolsonarista que me levou não usava a camisa verde amarela, e me parecia vacilante sempre que eu resistia à sua visão descolada dos fatos, às vezes até me dando razão. Me pareceu um bolsonarista mais independente, desses que migraram para a direta raiz ou que declararam voto em Lula. Fato é que, depois do escândalo do banco Master, aquele núcleo compacto da extrema direita caiu de 30 para 26% no último mês. Quando entrei no avião, finalmente um camisa 10 sentando-se na minha frente, e logo comentei: o meio-campo que falta na seleção está aqui? Ele riu. E eu me não dei conta de que aquela brincadeira tinha algo de premonitório.
Ao pousar em Brasília, muitas camisas 10 pude ver e fiquei pensando que aquilo não era um bom sinal, porque se todos os camisas 10 estivessem aqui, não teríamos um meio-campo de fato. Essa inflação de camisas se radicalizou quando vi que o próprio motorista que me levou para casa vendia camisas dentro do carro, idênticas às originais, a maioria era 10. Um ótimo vendedor, quase levei uma. E então lembrei que o Neymar é o nosso atual camisa 10, mas está machucado, um privilégio para pouquíssimos, ser convocado sem condições físicas de jogar. O ídolo da grande maioria dos convocados. Sim, Neymar instável emocional e fisicamente, frágil eu diria, é a referência moral, técnica e criativa para muitos daqueles que foram convocados. Não gostei dessa lembrança, mas também não alimentei muito remoer isso.
Todas essas sensações negativas do pré-jogo foram prevalecendo e se confirmaram, embora eu tivesse a ilusão de que sairíamos vencedores. Ninguém gostou do jogo. Nem mesmo o Ancelotti quis conversar direito sobre o assunto quando terminou a partida, visivelmente irritado, deixando de lado aquela urbanidade que ele parece querer preservar acima de tudo. Romário foi taxativo e papo reto. No aniversário do Vini, onde eu estava, a sala se esvaziou já com a parada técnica de hidratação do primeiro tempo. Com o lindo gol de Ismael Saibari, estrela do campeonato holandês da última temporada, a sala ficou mais vazia. E não era porque o Brasil estava perdendo, o Brasil não conseguia jogar, simplesmente; não é que faltava um ou outro jogador no meio-campo, faltava o meio-campo inteiro. Parecia um time amador numa partida qualquer de sábado à tarde entre amigos, e isso mesmo depois de empatar em jogada individual de Vini Júnior. Melhorou no segundo tempo, é verdade, ficou mais com a bola, acertou mais passes, sobretudo com a entrada de Mateus Cunha e Fabinho. Mas não escutei ninguém elogiar o jogo. Somente os marroquinos gostaram, porque saíram praticamente com a vaga de primeiro no grupo garantida. Jogaram bem, respeitaram o Brasil, mas jogaram para ganhar, ocuparam o meio campo indiscutivelmente durante quase todo o jogo, contra qualquer estatística, salvo pouquíssimas exceções do segundo tempo. Não ficaram recuados ou com medo em nenhum momento, foi bonito ver isso.
Muito se reclamou sobre a entrada de Luis Henrique, e não do Endrick no lugar do Igor. Eu acho uma questão boa. Ancelotti quer um atacante de mais marcação na saída adversária, por isso escalou Igor, mas é só pedir para o Endrick marcar também. Simples assim, e o Ancelotti faz isso direto com outros jogadores, inclusive mudando-os de sua posição original. A presença do Endrick como titular não é apenas questão tática ou técnica, é moral, é espiritual. E por mais que tenha respeito à geração Neymar, Endrick dá à seleção outra estética: de mais altivez, mais coragem, mais ousadia, mais comprometimento, mais responsabilidade; menos espetáculo, menos insegurança, menos covardia, menos lero-lero. A seleção jogou pessimamente e ninguém se responsabilizou.
Ancelotti faz questão de dar espaço para todos um pouquinho, ele fez isso nas eliminatórias e nos amistosos, isso é democrático e louvável. Mas confundiu todos os jogadores, porque ninguém se sente responsável pela posição que ocupa; e nem o próprio técnico parece saber qual é o time titular. A escalação não é democrática, é monocrática e de responsabilidade do técnico. No futebol, é preciso ter um time titular, porque com isso se constrói vínculos e mais segurança entre os jogadores. Agora, é preciso escolher um time espiritualmente firme que comece bem. Já deu! Não podemos esperar um tempo inteiro e começar a jogar no segundo tempo, como em amistosos. Pode ser tarde demais. Tivemos sorte ontem (sábado) de não ter perdido o jogo..., mesmo assim Brasília terminou o dia sob raios, trovão e muita chuva.
*Texto inaugural do projeto "Crônicas estéticas da copa 2026", parte do evento que o professor Miguel Gally está organizando, em agosto, na UnB.
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