Adão Fernandes da Cunha
O trabalho intitulado de Calendário Sociocultural do Quilombo Kalunga: nos entrelaces dos múltiplos letramentos, da sociolinguística e da (auto)etnografia para políticas públicas à educação escolar quilombola problematiza a necessidade de sistematização dos ciclos de culturas e dos modos de organizar e de viver do Quilombo Kalunga para implementação de políticas públicas. A luz disso, cumpriu o objetivo da sua proposição como resposta às desigualdades perante a criação e efetivação das políticas públicas para quilombolas.
Apresentamos a proposta por meio dos ciclos de culturas kalunga dividido em dois grandes eixos. Cada eixo, traz uma síntese da auto-organização do território em torno da sua complexa teia de saberes tanto orais como práticos, que não se dissociam.
No primeiro eixo, apresentamos a auto-organização do Quilombo Kalunga em torno dos ciclos de culturas orais tal qual se ancora nas crenças religiosas, bem como em torno das espiritualidades sagradas. As culturas das rezas, batizados, cantos, músicas, os rituais, as passagens da Lua e do Sol, as folias, os benditos e os benzimentos são exemplos de culturas orais que direcionam as práticas de saberes na definição do Calendário Sociocultural.
Para Corrêa (2018),
O calendário sociocultural é importante também por trabalhar, valorizar e fortalecer as narrativas transmitidas por meio da oralidade, que é um espaço em que todos os saberes se encontram. A organização, a partir dos tempos e espaços tradicionais possibilita uma escola auto-sustentável, pois há autonomia para ensinar e aprender, e assim se permite que esses processos sejam ancorados na realidade de cada comunidade, a partir daquilo que lhe é relevante, quebrando dessa forma, com o processo colonizador sobre o território, a cultura e o próprio ser Xakriabá, uma vez que o calendário potencializa as práticas subversivas já existentes na comunidade escolar (Corrêa, 2018, p. 129).
Nota-se neste sentido, que a oralidade é sem dúvida uma das grandes âncoras da composição do calendário, uma vez que a diversidade de saberes perpassa todas as relações econômica, política, cultural, ambiental, social , educacional e territorial.
No segundo eixo, do trabalho apresentamos o ciclo de culturas práticas, o qual teve como âncora a grande teia das práticas agrícolas e extrativistas quilombola. Em relação a cultura agrícola entendemos como o conjunto de práticas de cultivo como arroz, milho e feijão, hortifrutos como abóbora, jiló, quiabo, melancia, banana e mamão, cana-de-açúcar, gergelim, batata doce, mandioca entre outros, geralmente na sua forma organizada por grupos de famílias formados historicamente com a ocupação do território e repassados entre as gerações.
Pode-se dizer que a cultura agrícola quilombola são os modos de vida próprios desenvolvidos a partir do contato com a natureza e das experiências adquiridas ao longo dos tempos de relação. Já a cultura do extrativismo está vinculada na coleta de sementes, frutos do cerrado, raízes medicinais, em fim na sociobiodiversidade em que o cerrado nos apresenta como potencial econômico, político, cultural e educacional. Apresentado por esta divisão de dois eixos, a definição do Calendário Sociocultural Kalunga é dada como culturas de ciclos que se renova anos após anos pelo menos desde a origem dos quilombos.
Santos (2023) define que os “[...] cultivos festivos recheados de religiosidade (p. 44) [...]” estão associados às religiosidades como nas folias, rezas, benzimentos, reinados, mas também nas atividades agrícolas e extrativistas como ciclos que se renovam e que se completam.
Como conclusão e resultado, apresentamos um calendário contínuo, flexível e não um produto final, acabado, fechado. Apresentamos uma possibilidade aberta de construção e reformulação de políticas públicas para quilombolas.
A pesquisa evidenciou a necessidade de reestruturar as pedagogias e a matriz formativa das escolas quilombolas, uma vez que o Calendário Sociocultural propõe que as metodologias e as práticas de ensino aprendizagem devem vincular-se não às salas de aulas, mas às "salas de saberes" como (rios, quintais, terreiros, roças, cerrado, campos, cozinhas) como partes integradas ao currículo escolar formal, observando que o calendário é cíclico, contínuo e dinâmico
Como direcionamento a proposta do calendário aponta a necessidade de a) reformulação legislativa no intuito de criação de leis municipais que reconheçam e valorizem os modos de vida kalunga; b) formação docente no intuito de tê-lo como base para a formação continuada de profissionais da educação escolar quilombola e c) transformação do modelo das escolas quilombolas contemplando em seu calendário, no currículo, nos materiais didáticos, na sua pedagogia de ensino e no fazer pedagógico a matriz formativa do quilombo a luz dos múltiplos letramentos que o compõe moldando assim "o chão das escolas" na promoção e garantia de direitos.
Referências
CORREA XAKRIABÁ, Célia Nunes. O Barro o Genipapo e o Giz no fazer epistemológico de Autoria Xakriabá: reativação da memória por uma educação territorializada/, Célia Nunes Correa Xakriabá. Brasília- DF, 2018. 218p.
SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. 1.ed. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
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