Miguel Gally de Andrade
Numa era marcada por constante aceleração e alta velocidade no que diz respeito a tudo dentro da vida, das atividades domésticas a decisões de Estado, do amor erótico ao amor à pátria, da calçada à autoestrada, da sala de aula às conferências plenárias, das amizades aos negócios, do carinho à gerência, do macarrão na rua da 206 ao birosca do Conic...de tudo a tudo, pausar torna-se um ato de profunda rebeldia. Parar simplesmente. Ver tudo passar sem fazer algo, sair, se retirar do turbilhão de informações, demandas, (re)soluções, tarefas, mensagens. Ontem eu consegui suspender o tempo, e não foi para ver o jogo.
E vi também que isso aconteceu no momento inicial da partida, quando o hino do Brasil tocava no Estádio de Miami. Nos outros jogos isso não tinha acontecido, e acredito que a presença hegemônica da torcida brasileira na arquibancada foi fundamental quando cantou junto. E alta qualidade da recepção do áudio dentro do estádio ajudou muito para nós, espectadores à distância, porque escutamos quase 60 mil pessoas cantarem o hino, até o Ancelotti cantou dessa vez. Nos jogos passados, ele enrolou, gerando um desconforto tremendo para o italiano, mas ele ontem cantou também. Nesse momento, alguns jogadores e torcedores pararam o tempo, não pela beleza da letra ou da música do hino, bastante questionável, mas pela força de milhares de vozes juntas, sinfonicamente. Entrar nessa sintonia de resguardo do tempo pelo canto une as pessoas em uma experiência estética, do micro ao macro humano, e essa unidade é fundamental para se construir um time.
O jogo em si foi bom porque pudemos testemunhar que a seleção não precisa de milagres, precisa de tempo para jogos, um tempo que não tem, por isso parece precisar de milagres. Ancelotti sabe disso e projeta sua participação mais consistente apenas para 2030. Até lá vai tocando e administrando a pressão da mídia brasileira. Mas na série dos últimos três jogos, é consenso que jogamos sempre um segundo tempo melhor. E diria mais, o primeiro tempo dos jogos seguintes também parece melhor do que o segundo tempo dos jogos passados. Ou seja, desconfio que estejamos dentro de uma progressão, embora não saibamos se aritmética ou geométrica.
A seleção melhorou muito a marcação no geral e impressionou no combate da saída de bola adversária, dois gols feitos assim, um deles anulado. A estreia de Rayan como titular mostrou duas coisas. Ele joga muito mais do que estão falando, simplesmente não errou passes, e seguiu a cartilha da marcação do esquema tático do Ancelotti, embora tenha perdido um gol quase feito. Outra, o Endrick só entra mesmo para substituir Vini, embora jogue atualmente no Lyon como atacante na ponta direita fazendo um bom trabalho! Bruno Guimarães foi outro com excelente partida, seus lançamentos foram realmente incríveis de tão precisos, não só para o segundo gol de Vini no finalzinho do primeiro tempo.
Aquela seleção bizarra do primeiro jogo não existe mais. E uma forte contribuição também foi a de Matheus Cunha, que anotou o terceiro gol da partida, garantindo um meio campo que marca e sobe com precisão. No seu lugar, no segundo tempo, entrou Neymar, tão aguardado por muitos, e tão esquecido por outros tantos. Difícil situação para o Neymar. Matheus Cunha vai muito bem. Aguardemos. Alisson foi outro com grande presença, pegou pelo menos duas que deveriam valer gol, dado o grau de dificuldade, como naquela cabeçada; tão difícil que muitos escoceses já estavam comemorando no estádio quando se deram conta da defesa.
A fase de grupos mostrou uma trajetória em ascensão da seleção. Mas só parando o tempo mais vezes para que a equipe como um todo torne-se consciente da sua responsabilidade como time, e se rebele contra o excesso de espetáculo, contra os jornalistas, cronistas, torcedores, e que jogue parando o tempo. Vamos precisar, porque seja quem for nosso adversário, já sabemos que do outro lado estão equipes bem melhores do que aquelas que enfrentamos até agora.
*Texto referente ao projeto "Crônicas estéticas da copa 2026", parte do evento VII Colóquio Internacional Estéticas no Centro: Artes e estéticas nos limites da democracia - 25 a 28 de agosto de 2026, no Campus Darcy Ribeiro.
ATENÇÃO – O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor, expressa sua opinião sobre assuntos atuais e não representa a visão da Universidade de Brasília. As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seu conteúdo.


