OPINIÃO

Kleber Aparecido da Silva é professor do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas e do Programa de Pós-Graduação em Linguística e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Coordena o Grupo de Estudos Críticos e Avançados em Linguagens (GECAL) e o Laboratório de Estudos Afrocentrados em Relações Internacionais da UnB (LACRI). É bolsista de produtividade em pesquisa pelo CNPq – 2A.  kleberunicamp@yahoo.com.br | kleberaparecidodasilva@gmail.com

Kleber Aparecido da Silva

 

Durante muito tempo, uma narrativa equivocada foi reproduzida na sociedade brasileira: a ideia de que o racismo seria consequência exclusiva da pobreza, da falta de escolaridade ou da exclusão econômica. Nessa perspectiva, bastaria que pessoas negras alcançassem melhores condições de vida, reconhecimento profissional ou prestígio social para que as barreiras raciais fossem superadas. A realidade, entretanto, demonstra exatamente o contrário.

 

O racismo não desaparece quando uma pessoa negra conquista sucesso acadêmico, profissional, artístico ou esportivo. Em muitos casos, ele apenas assume novas formas. Torna-se mais sutil, mais sofisticado e, por isso mesmo, mais difícil de ser identificado e combatido. A discriminação racial continua operando mesmo quando indivíduos negros ocupam espaços historicamente reservados às elites brancas.

 

Basta observar os acontecimentos que frequentemente ganham destaque nos meios de comunicação. Atletas negros de projeção internacional continuam sendo vítimas de insultos racistas em estádios lotados. Artistas negras são constantemente alvo de ataques nas redes sociais por sua aparência, cabelo ou forma de expressão. Intelectuais, professores e pesquisadores negros ainda enfrentam questionamentos sobre sua competência em ambientes acadêmicos. Crianças negras seguem sofrendo preconceito em escolas, espaços de lazer e instituições públicas.

 

Esses episódios revelam uma verdade desconfortável: o racismo não está relacionado apenas à posição econômica dos indivíduos. Trata-se de uma estrutura social profundamente enraizada que organiza relações de poder, distribui privilégios e define quem é percebido como pertencente ou não a determinados espaços sociais. Em outras palavras, uma pessoa negra pode alcançar elevado grau de escolarização, reconhecimento profissional e estabilidade financeira sem deixar de ser alvo de discriminação racial.

 

A ascensão social frequentemente expõe uma contradição histórica das sociedades marcadas pelo racismo estrutural. Quando pessoas negras alcançam posições de destaque, muitas vezes passam a desafiar expectativas sociais construídas ao longo de séculos. Sua presença em espaços de poder, liderança e prestígio pode ser interpretada como uma ruptura de hierarquias raciais naturalizadas. É justamente nesse momento que surgem novas formas de resistência, hostilidade e exclusão.

 

No contexto universitário, essa discussão assume especial relevância. As universidades públicas brasileiras, especialmente após a implementação das políticas de ações afirmativas, passaram a refletir de maneira mais significativa a diversidade da população brasileira. A presença crescente de estudantes, docentes e pesquisadores negros tem contribuído para ampliar perspectivas, democratizar a produção do conhecimento e questionar paradigmas historicamente consolidados.

 

Entretanto, a inclusão não elimina automaticamente as desigualdades. Diversos estudos apontam que estudantes negros ainda enfrentam desafios relacionados ao sentimento de pertencimento, à representação insuficiente em posições de liderança acadêmica e à persistência de práticas discriminatórias, muitas vezes manifestadas de forma indireta. Comentários aparentemente inofensivos, questionamentos sobre mérito ou expectativas reduzidas em relação ao desempenho acadêmico são exemplos de manifestações cotidianas do racismo que continuam presentes mesmo em ambientes dedicados à produção crítica do conhecimento.

 

Por essa razão, é fundamental superar a tendência de tratar casos de racismo como episódios isolados. Quando cada ocorrência é interpretada como uma exceção, perde-se a capacidade de compreender a dimensão estrutural do problema. O combate ao racismo exige mais do que indignação momentânea diante de casos que ganham repercussão pública. Exige compromisso institucional, formação continuada, revisão de práticas e disposição para promover mudanças efetivas nas relações sociais.

 

Nesse processo, a educação desempenha papel estratégico. Uma educação comprometida com os direitos humanos, com a justiça social e com a valorização da diversidade contribui para desconstruir estereótipos, ampliar perspectivas e fortalecer a convivência democrática. O ambiente universitário, em particular, possui a responsabilidade de fomentar debates qualificados, incentivar pesquisas sobre desigualdades raciais e formar profissionais capazes de atuar de maneira ética e socialmente comprometida.

 

Reconhecer que o racismo persiste independentemente do sucesso individual não significa negar a importância das conquistas alcançadas pela população negra. Pelo contrário. Significa compreender que tais conquistas representam avanços importantes, mas insuficientes para desmontar estruturas históricas de discriminação. A valorização das trajetórias de sucesso deve caminhar lado a lado com o enfrentamento das barreiras que continuam limitando oportunidades e produzindo desigualdades.

 

Mais do que celebrar exemplos individuais de superação, é necessário construir uma sociedade em que pessoas negras não precisem provar constantemente seu valor para serem respeitadas. Uma sociedade em que a presença negra em espaços de destaque não seja vista como exceção, mas como expressão legítima da diversidade que caracteriza o Brasil.

 

O desafio que se coloca para as universidades, para as instituições públicas e para a sociedade em geral é justamente este: transformar o reconhecimento da existência do racismo em ações concretas de enfrentamento. Afinal, enquanto a discriminação continuar acompanhando pessoas negras independentemente de suas conquistas, ainda estaremos distantes de uma democracia verdadeiramente inclusiva e racialmente justa.

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